Se aproxima o prazo para que todas as empresas atuantes no Brasil se adequem às últimas definições sobre a NR-1. A Norma Regulamentadora nº 1 trata das disposições gerais sobre segurança e saúde no trabalho.
A partir de maio de 2026, as empresas devem incluir formalmente os fatores psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).
A medida já está em fase de adoção e adaptação desde maio de 2025, sendo uma mudança significativa na forma como as indústrias devem lidar com a saúde mental no ambiente de trabalho.
Saúde mental como risco ocupacional
A atualização da NR-1 estabelece que fatores como sobrecarga de trabalho, assédio moral, pressão por metas inalcançáveis e conflitos organizacionais sejam reconhecidos como riscos ocupacionais formais. Esses elementos deverão ser identificados, avaliados e controlados pelas empresas, assim como já ocorre com agentes físicos, químicos e ergonômicos.
De acordo com Giovanna Gregori Pinto, fundadora da People Leap, a norma reflete uma necessidade urgente. “Os transtornos mentais e comportamentais já estão entre as principais causas de afastamento do trabalho no Brasil. Ainda assim, muitas empresas continuam lidando com o tema de forma reativa, apenas quando o problema já se traduz em afastamentos ou queda de desempenho”, afirma.
Dados do Ministério da Previdência Social reforçam essa realidade, mostrando que quadros como ansiedade, depressão e síndrome de burnout têm se tornado cada vez mais frequentes no ambiente corporativo.
Integração entre áreas será essencial para NR-1
A implementação da NR-1 exigirá uma abordagem multidisciplinar. Segundo Patricia Barboza, advogada trabalhista e sócia do escritório CGM Advogados, a norma demanda a integração de diferentes áreas dentro das empresas.
“A gestão dos riscos psicossociais exige integração entre áreas jurídicas, recursos humanos, segurança do trabalho e liderança. Já não é mais possível tratar saúde mental apenas como pauta institucional. A NR-1 transforma esse tema em dever legal mensurável para que as empresas criem ambientes mentalmente seguros”, explica.
Além disso, a advogada destaca que a norma impactará diretamente a produção de provas em ações trabalhistas.
“O que estará em discussão não é só a existência do programa de gestão de riscos, mas a efetividade das medidas adotadas. Indicadores de adoecimento, rotatividade e denúncias internas passam a ter peso jurídico.”
Liderança e cultura organizacional no foco da norma
A NR-1 também conecta diretamente a organização do trabalho à saúde dos empregados. Práticas como jornadas excessivas e ausência de gestão de conflitos poderão ser interpretadas como fatores de risco se não houver controle e monitoramento.
Para Giovanna, o papel das lideranças será determinante. “Dados não tomam decisões sozinhos. Eles precisam ser interpretados, contextualizados e transformados em ações por lideranças capazes de lidar com complexidade, ética e responsabilidade”.
A recomendação é que as empresas invistam em treinamentos para líderes, revisem práticas de gestão e promovam uma cultura de segurança psicológica.
Além disso, registros e evidências, como atas de reuniões, planos de ação e indicadores de saúde mental, serão fundamentais para atender às exigências da norma.
Processos e rotinas para a NR-1
Quem traz as dicas de adequação à NR-1 é Luis Henrique Borrozzino, sócio do M3BS Advogados e membro da Comissão de Direito do Trabalho da OAB/SP.
Segundo ele, os principais ajustes para a indústria são:
- revisão de jornadas, plantões e escalas de trabalho;
- análise de fluxos operacionais e pontos de sobrecarga;
- uso de dados internos, como absenteísmo, atestados médicos e rotatividade;
- inclusão desses fatores no PGR, com medidas preventivas, responsáveis definidos e prazos claros.
“A NR-1 não cria uma obrigação nova. Ela exige organização do trabalho e método”, aponta o especialista.
Benefícios esperados com a NR-1 nas indústrias
Embora a adaptação à NR-1 exija mudanças estruturais, os benefícios esperados são significativos. A gestão eficaz dos riscos psicossociais pode reduzir afastamentos, aumentar a produtividade, prevenir litígios trabalhistas e fortalecer a reputação das empresas.
Segundo Patricia Barboza, a norma também tem o potencial de melhorar a relação entre empregadores e empregados. “A expectativa do governo é de que a medida fortaleça a prevenção de adoecimentos relacionados ao trabalho e reduza afastamentos e litígios trabalhistas”, afirma.
A NR-1 representa um marco na gestão de saúde e segurança no trabalho, ao incluir os fatores psicossociais como parte integrante do gerenciamento de riscos. Para as empresas, o desafio vai além do cumprimento documental. A norma exige planejamento, integração entre áreas e uma mudança de cultura organizacional.
“A pergunta que fica é: sua empresa sabe hoje onde estão os maiores riscos de adoecimento mental ou vai continuar descobrindo apenas quando o problema já virou afastamento?”, questiona Giovanna Gregori Pinto.
A implementação da NR-1 é uma oportunidade para as empresas criarem ambientes de trabalho mais seguros e saudáveis, contribuindo para a sustentabilidade dos negócios e o bem-estar dos trabalhadores.
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