Perspectivas internacionais: como os EUA e a Itália estão reagindo aos impactos da COVID-19

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Os impactos da COVID-19 chegaram em ondas, afetando gradativamente todos os países do mundo. A crise global observada por todos os setores foi sentida especialmente pelo segmento industrial. Atuando em rede, a cadeia como um todo foi atingida: a paralisação das indústrias chinesas afetou o abastecimento e, consequentemente, a capacidade produtiva de países em todos os continentes. Com o avanço do vírus, a produção acabou interrompida, parcial ou completamente, ao longo de todo o primeiro semestre.

No Brasil, os efeitos mais graves começaram a ser observados em março e abril, embora já se observasse impactos no abastecimento de peças desde o início do ano. Ao mesmo tempo, indústrias de outros pontos do mundo retomaram aos poucos suas atividades e, hoje, países enfrentam momentos diferentes de um mesmo problema. Se na Europa e na Ásia a pandemia já dá sinais de controle e estabilidade, a América, especialmente os Estados Unidos, ainda se vêem diante de uma fase mais aguda da doença. Como indústrias dos EUA e da Itália reagiram e se preparam para os momentos de retomada?

Perspectiva americana: impactos e transformação

Para Achilles P. Arbex, gerente geral do Centro de Tecnologia AMT (Association For Manufacturing Technology), o início de 2020 trouxe um cenário de muitas incertezas para o setor industrial. “O que sabíamos era que os efeitos da pandemia seriam rápidos e devastadores, ao passo que as relações de negócio seriam evidenciadas ou, no mínimo, colocadas à prova”, comenta. “A cadeia de suprimentos foi em geral impactada, em principal pela redução dos níveis de produção das plantas industriais localizadas na China”, aponta o gerente.

A implantação da quarentena e de políticas de distanciamento social, além do fechamento de fronteiras, afetaram as indústrias dos mais variados segmentos. Segundo Arbex, o ritmo de trabalho foi então modificado à medida que os novos procedimentos de foram implementados. “Nenhuma indústria trabalha em isolamento, assim como nenhuma economia funciona bem em atmosfera de isolamento. Entretanto, para os EUA, a desaceleração da economia Chinesa representava dois grandes desafios: uma cadeia de suprimentos sem muita atividade vivendo um momento de abalo em suas relações comerciais e uma reduzida demanda dos consumidores”, conta. 

achilles.JPGUtilizando o automóvel de passeio como exemplo, o gerente geral da AMT comenta: “Este é composto por algo em torno de 30.000 peças, fabricadas por uma vasta cadeia de fornecedores situados em múltiplas países. A perturbação da cadeia automotiva foi tão grande que, mesmo considerando a existência de acordos como EUA-México-Canada (USMCA), a produção Chinesa de componentes essenciais afetou os níveis americanos da indústria automobilística. Gigantes americanos como a General Motors e Fiat Chrysler se apoiaram na China para a produção de componentes chaves como dobradiças de portas, componentes eletrônicos e de suspensão/direção. Dados os laços estreitos entre os países do USMCA, a perturbação se espalhou pelas cadeias Mexicanas e Canadenses, devastando ainda mais uma economia altamente produtiva e com altíssima perspectiva”.

A indústria de circuitos e semicondutores dos EUA, representando cifras na ordem de 54 bilhões de dólares, é a maior fornecedora de diodos, microcircuitos, chips de memória e outros semicondutores. Com a cadeia chinesa voltada para a produção de componentes de telecomunicação e equipamentos eletrônicos de alto valor agregado, a indústria de circuitos e semicondutores americana sofreu. “A China representa um consumo de aproximadamente 26% da produção americana deste setor, o que nos indica apenas uma breve ideia do quão grande foram as perdas geradas pela redução de demanda dos produtos manufaturados nos EUA”, comenta Arbex. Vieram, então, os pacotes de ajuda do governo. Tais programas foram lançados em diferentes fases e somariam 3 trilhões de dólares, o que certamente colaborou para a recomposição da indústria no geral.

Tecnologia e transformação digital

As tecnologias emergentes se consolidaram, assim, como o futuro dos negócios. “As empresas mais e mais enxergam a transformação digital como necessidade, mesmo enquanto há dúvidas e desafios quanto a sua implantação”, comenta o gerente da AMT. “Quando confrontados com a realidade, sua implementação é difícil enquanto conduzimos os negócios como de costume. No entanto, existem exemplos impressionantes em que as empresas mudaram de curso e transformaram seus negócios, integrando a tecnologia digital para mudar fundamentalmente a maneira como operam e como agregam valor aos clientes”, diz.

Para Arbex, transformar um negócio dessa maneira não é simples e requer uma tremenda quantidade de coragem e liderança visionária. “Os elementos principais incluem: migração de sistemas locais para nuvens híbridas, modernização de software financeiro e operacional, melhoria da experiência do cliente usando a tecnologia e criação de um ambiente de trabalho mais dinâmico e flexível. Em resposta às nossas ‘lições de casa’ e outras medidas de bloqueio devido à pandemia do COVID-19, muitas empresas adotaram alguns desses elementos, usando a tecnologia por necessidade; esse afastamento dos negócios normais pode ser o primeiro passo significativo no caminho da transformação digital”.

“Acredito que a maior lição que todos estão tirando dessa crise é a necessidade de cadeias de suprimentos mais localizadas e robustas”, defende Arbex. “Existe um nível crítico de autossuficiência de fabricação, necessário para os interesses econômicos, de saúde e de segurança nacional. Em segundo lugar, acredito que a clara proposta de valor que níveis mais altos de automação proporcionam em tempos de distanciamento social e capacidade limitada de viajar - a automação pode aumentar essa lacuna e manter os níveis de produção elevados, ao mesmo tempo em que apoia a segurança do trabalhador”, completa. 

Confira a entrevista completa de Achilles P. Arbex para A Voz da Indústria.

Itália: crise e recuperação diante dos olhos do mundo

Segundo Massimo Carboniero, presidente da UCIMU-SISTEMI PER PRODURRE, o impacto observado na Itália foi muito pesado. “A Itália foi o primeiro país a enfrentar a emergência com poucas informações recebidas da China. Fomos o país de teste e o observado pelos outros países europeus para decidir o que fazer. No entanto, apesar do nosso exemplo, alguns países perderam um tempo precioso e levaram vários dias - e até semanas - para implementar uma estratégia apropriada para responder à pandemia”, comenta.

Para Carboniero, os efeitos dessa crise na indústria italiana de máquinas-ferramenta já foram parcialmente perceptíveis pelo índice de pedidos recebidos no primeiro trimestre de 2020, que mostrou uma queda de 11% em comparação com o período de janeiro a março de 2019. “A desaceleração se mostrou forte para o mercado interno, onde os pedidos recebidos caíram 43%, e menores no mercado externo, onde houve uma redução de 4,4%. O efeito da crise foi, no entanto, mitigado pela boa tendência dos negócios nos dois primeiros meses do ano”, explica. MCarboniero pres UCIMU logo 1.jpg“Emergências e a quarentena começaram a nos afetar a partir de março. Portanto, o impacto dessa crise será evidente no próximo trimestre. Os fabricantes preveem uma queda de 20% a 30% no faturamento de 2020, mas esperamos uma recuperação a partir de 2021, ano em que a Itália sediará a EMO, a exposição mundial de referência para a indústria de transformação, que certamente trará muitas vantagens e estimulará o momento de recuperação”, conta.

No início de março, as fábricas italianas interromperam temporariamente suas produções, obedecendo às medidas adotadas pelas autoridades do país. “Usamos as primeiras semanas para nos organizar da melhor maneira, pensando em todas as medidas que poderíamos implementar para alcançar a mais alta segurança em nossas plantas. Em seguida, adotamos procedimentos e regras ainda mais rigorosas do que aqueles estabelecidos pelas autoridades de saúde competentes. Também, graças a investimentos extraordinários, equipamos nossas fábricas com organizações e ferramentas ‘especiais’ que nos permitiriam abrir muito antes das nossas autoridades darem sinal verde”, comentou.

Durante as cinco semanas de bloqueio, a atividade de produção quase parou. “Por outro lado, também graças às tecnologias digitais, fomos capazes de garantir assistência remota para nossos clientes em todo o mundo. Para todas as atividades não relacionadas à produção e montagem, experimentamos com sucesso o trabalho inteligente. No entanto, o coração de nossos negócios foi interrompido até o início de maio. Foi um período muito longo que agora estamos tentando recuperar com muito esforço. Esta crise é pesada, mas as empresas italianas são muito flexíveis por natureza e assumiram o desafio de uma nova mudança. Estou certo de que os resultados serão positivos”, acredita.

Tecnologia e perspectivas para o futuro

“O que experimentamos prova que nenhum país estava preparado para enfrentar uma emergência desse tipo. Sem dúvida, alguns aspectos poderiam ter sido mais bem gerenciados, mas devemos admitir que as autoridades tiveram que lidar com uma situação realmente muito difícil”, aponta Carboniero. Porém, a tecnologia também se mostrou decisiva no cenário italiano. “Esse período realmente particular certamente fez com que todos entendessem que, graças às inovações tecnológicas à nossa disposição, podemos mudar e melhorar os procedimentos de trabalho operacional. Também no setor de máquinas-ferramenta, a flexibilidade e as tecnologias inovadoras estão cada vez mais presentes, ajudando a avançar de maneira mais rápida e a atender aos novos requisitos de maneira mais reativa, além de facilitar o controle remoto e o gerenciamento dos processos de negócios e produção”, acredita.

Todo o trabalho realizado na Indústria 4.0 mostrou seu valor e eficácia nessa situação. “Há muito o que fazer e, mesmo neste caso, a emergência prova como a questão da digitalização é essencial para o nosso setor e para o nosso trabalho. Nós, fabricantes italianos, fizemos grandes investimentos no desenvolvimento de máquinas e soluções baseadas em tecnologias 4.0 e isso tornou nosso produto ainda mais competitivo no mercado internacional. Também diante dessa má experiência, seguiremos nessa direção, com a certeza de que o mercado nos seguirá”, comenta.

“Essa experiência nos ensinou que devemos estar prontos para nos reorganizar, também fazendo mudanças extensas em relação à nossa maneira de gerenciar negócios em um tempo muito curto. Além disso, aprendemos que ninguém está a salvo de crises dessa extensão, independentemente da posição geográfica e do grau de desenvolvimento do país em que vive e opera. Além disso, os investimentos em pesquisa e desenvolvimento no campo científico e técnico representam a chave para garantir o futuro e o desenvolvimento da sociedade. E nós somos os principais jogadores neste campo”, finaliza Carboniero.

Confira a entrevista completa de Massimo Carboniero para A Voz da Indústria.

 

 

[Entrevista] Presidente da UCIMU comenta cenário industrial italiano diante da COVID-19

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MCarboniero pres UCIMU logo 1.jpgConfira a seguir a íntegra da entrevista com Massimo Carboniero, presidente da UCIMU, associação italiana de máquinas ferramentas. 

Leia também: Perspectivas internacionais: como os EUA e a Itália estão reagindo aos impactos da COVID-19 

  1. Por suas características, a crise da COVID-19 afetou indústrias em todo o mundo. Quais foram os impactos no cenário italiano?

O impacto, sem dúvida, foi pesado. A Itália foi o primeiro país a enfrentar a emergência com poucas informações recebidas da China. Fomos o país de teste e o observado pelos outros países europeus para decidir o que fazer. No entanto, apesar do nosso exemplo, alguns países perderam um tempo precioso e levaram vários dias - e até semanas - para implementar uma estratégia apropriada para responder à pandemia.

Os efeitos dessa crise na indústria italiana de máquinas-ferramenta já foram parcialmente perceptíveis pelo índice de pedidos recebidos no primeiro trimestre de 2020, que mostrou uma queda de 11% em comparação com o período de janeiro a março de 2019. A desaceleração se mostrou forte para o mercado interno, onde os pedidos recebidos caíram 43%, e menores no mercado externo, onde houve uma redução de 4,4%. O efeito da crise foi, no entanto, mitigado pela boa tendência dos negócios nos dois primeiros meses do ano. Emergências e a quarentena começaram a nos afetar a partir de março. Portanto, o impacto dessa crise será evidente no próximo trimestre. Os fabricantes preveem uma queda de 20% a 30% no faturamento de 2020, mas esperamos uma recuperação a partir de 2021, ano em que a Itália sediará a EMO, a exposição mundial de referência para a indústria de transformação, que certamente trará muitas vantagens e estimulará o momento de recuperação.

  1. Quais foram as primeiras reações à crise executadas pelas indústrias na Itália?

Quando, no início de março, as autoridades do governo nos pediram para fechar temporariamente nossas fábricas, concordamos plenamente com isso, porque entendíamos a gravidade da situação. Usamos as primeiras semanas para nos organizar da melhor maneira, pensando em todas as medidas que poderíamos implementar para alcançar a mais alta segurança em nossas plantas. Em seguida, adotamos procedimentos e regras ainda mais rigorosas do que aqueles estabelecidos pelas autoridades de saúde competentes. Também, graças a investimentos extraordinários, equipamos nossas fábricas com organizações e ferramentas “especiais” que nos permitiriam abrir muito antes das nossas autoridades darem sinal verde.

Durante as cinco semanas de bloqueio, a atividade de produção quase parou. Por outro lado, também graças às tecnologias digitais, fomos capazes de garantir assistência remota para nossos clientes em todo o mundo. Para todas as atividades não relacionadas à produção e montagem, experimentamos com sucesso o trabalho inteligente. No entanto, o coração de nossos negócios foi interrompido até o início de maio. Foi um período muito longo que agora estamos tentando recuperar com muito esforço. Esta crise é pesada, mas as empresas italianas são muito flexíveis por natureza e assumiram o desafio de uma nova mudança. Estou certo de que os resultados serão positivos.

  1. Algum país ou região tinha um cenário que possa ser considerado mais bem preparado para esse tipo de crise? Que boas práticas podemos citar nesse sentido?

O que experimentamos prova que nenhum país estava preparado para enfrentar uma emergência desse tipo. Como mencionamos, a Itália foi um dos primeiros países a enfrentar essa crise, sem orientações precisas e, ao fazê-lo, certamente cometeu alguns erros, mas se comportou com grande seriedade. Sem dúvida, alguns aspectos poderiam ter sido mais bem gerenciados, mas devemos admitir que as autoridades tiveram que lidar com uma situação realmente muito difícil. Eu acho que a comunicação foi um dos aspectos que mais nos penalizou. Fomos erroneamente considerados como o país que contribuiu para a entrada do vírus na Europa e sua disseminação entre os países da UE. Na verdade, fomos os primeiros a alertar sobre o Covid-19, que já circulava em outros países há algum tempo. Esse aspecto nos penalizou fortemente. Agora, temos que trabalhar duro para recuperar nossa imagem e os dias de trabalho que perdemos. No entanto, como sempre, estamos confiantes e muito motivados para “voltar ao palco”.

  1. Como a tecnologia pode ajudar as indústrias de manufatura durante e após essa crise? É possível dizer que a COVID-19 acelerou os processos de transformação digital?

Esse período realmente particular certamente fez com que todos entendessem que, graças às inovações tecnológicas à nossa disposição, podemos mudar e melhorar os procedimentos de trabalho operacional. Também no setor de máquinas-ferramenta, a flexibilidade e as tecnologias inovadoras estão cada vez mais presentes, ajudando a avançar de maneira mais rápida e a atender aos novos requisitos de maneira mais reativa, além de facilitar o controle remoto e o gerenciamento dos processos de negócios e produção. Todo o trabalho realizado na Indústria 4.0 mostrou seu valor e eficácia nessa situação. Há muito o que fazer e, mesmo neste caso, a emergência prova como a questão da digitalização é essencial para o nosso setor e para o nosso trabalho. Nós, fabricantes italianos, fizemos grandes investimentos no desenvolvimento de máquinas e soluções baseadas em tecnologias 4.0 e isso tornou nosso produto ainda mais competitivo no mercado internacional. Também diante dessa má experiência, seguiremos nessa direção, com a certeza de que o mercado nos seguirá.

  1. Indústrias que já estavam mais adiantadas na aplicação dos conceitos de indústria 4.0 terão menos dificuldades para passar por esse momento incerto? Quais fatores serão decisivos para a retomada da produção industrial no mundo?

Certamente, as empresas que utilizam tecnologias 4.0 tiveram mais facilidade ao enfrentar este momento tão particular. No entanto, a emergência do Corona vírus nos fez entender o quanto é importante atualizar não apenas máquinas, mas também métodos de gerenciamento e organização dentro de uma empresa, de acordo com a abordagem da digitalização. Todas as empresas devem trabalhar nisso no futuro próximo.

  1. O que é possível esperar dos próximos anos da indústria mundial?

Nos últimos anos, a globalização se tornou realidade para aqueles que operam na indústria de transformação, mas também no comércio. Agora, a emergência de saúde nos obriga a refletir sobre uma nova interpretação sobre o conceito de globalização que está presente em todos os campos de nossa vida cotidiana. Ainda não sabemos como o mundo vai evoluir. No entanto, temos certeza de que nós, fabricantes italianos de máquinas-ferramenta, continuaremos trabalhando no mercado internacional, vendendo em mercados próximos e distantes, tradicionais e emergentes. Afinal, nosso expertise é reconhecido em todo o mundo e nos permite participar das cadeias globais de produção dos principais setores, como automotivo, aeroespacial, energia, mas também as indústrias mecânica e de engenharia. Também neste período de grande complexidade, apesar da interrupção de nossas atividades, não experimentados nenhuma a exclusão das cadeias produtivas.

  1. Qual será o legado dessa crise para a indústria?

Essa experiência nos ensinou que devemos estar prontos para reorganizar, também fazendo mudanças extensas em relação à nossa maneira de gerenciar negócios em um tempo muito curto. Além disso, aprendemos que ninguém está a salvo de crises dessa extensão, independentemente da posição geográfica e do grau de desenvolvimento do país em que vive e opera. Além disso, os investimentos em pesquisa e desenvolvimento no campo científico e técnico representam a chave para garantir o futuro e o desenvolvimento da sociedade. E nós somos os principais jogadores neste campo!


Massimo Carboniero é graduado em Business Economics na University Ca’ Foscari in Venice, Economics and Commerce Faculty. É CEO e co-owner da OMERA, líder no setor de manufatura de máquinas-ferramenta. Managing Director da FAIB, especializado em manufatura para o setor automotivo. Desde junho de 2016, é presidente da UCIMU, associação italiana de máquinas-ferramenta. 

[Entrevista] Cenário industrial americano: entrevista com Achilles Arbex, da AMT

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Confira a seguir a íntegra da entrevista com Achilles P. Arbex, gerente geral da AMT (Association For Manufacturing Technology). 

Leia também: Perspectivas internacionais: como os EUA e a Itália estão reagindo aos impactos da COVID-19 

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1. Por suas características, a crise da COVID-19 afetou indústrias em todo o mundo. Quais foram os impactos no cenário americano?

Iniciamos o ano de 2020 com uma grande surpresa, a pandemia, e sem muita clareza sobre o desdobramento desta crise sanitária e como a disseminação do vírus afetaria a indústria e economia nos diversos lugares do globo. O que sabíamos era que os efeitos da pandemia seriam rápidos e devastadores, ao passo que as relações de negócio seriam evidenciadas ou, no mínimo, colocadas à prova.

2. Quais foram as primeiras reações à crise executadas pelas indústrias nos EUA?

Em um primeiro impacto vieram os cancelamentos de eventos e viagens de negócios, que a longo prazo causariam uma diminuição nos volumes de negócios. Logo em seguida a cadeia de suprimentos foi em geral impactada, em principal pela redução dos níveis de produção das plantas industriais localizadas na China.

A partir de então, a quarentena, as políticas de distanciamento social e o fechamento de fronteiras afetaram as indústrias dos mais variados segmentos. O ritmo de trabalho foi então modificado à medida que os novos procedimentos de distanciamento foram implementados.

3. Algum país ou região tinha um cenário que possa ser considerado mais bem preparado para esse tipo de crise? Que boas práticas podemos citar nesse sentido?

Nenhuma indústria trabalha em isolamento, assim como nenhuma economia funciona bem em atmosfera de isolamento. Entretanto, para os EUA, a desaceleração da economia chinesa representava dois grandes desafios: uma cadeia de suprimentos sem muita atividade vivendo um momento de abalo em suas relações comerciais e uma reduzida demanda dos consumidores.

Utilizando o automóvel de passeio como exemplo: este é composto por algo em torno de 30.000 peças, fabricadas por uma vasta cadeia de fornecedores situados em múltiplas países. A perturbação da cadeia automotiva foi tão grande que, mesmo considerando a existência de acordos como EUA-México-Canada (USMCA), a produção Chinesa de componentes essenciais afetou os níveis americanos da indústria automobilística.

Gigantes americanos como a General Motors e Fiat Chrysler se apoiaram na China para a produção de componentes chaves como dobradiças de portas, componentes eletrônicos e de suspensão/direção. Dados os laços estreitos entre os países do USMCA, a perturbação se espalhou pelas cadeias mexicanas e canadenses, devastando ainda mais uma economia altamente produtiva e com altíssima perspectiva.

A indústria de circuitos e semicondutores dos EUA, representando cifras na ordem de USD 54 bilhões, é a maior fornecedora de diodos, microcircuitos, chips de memória e outros semicondutores. Com a cadeia chinesa voltada para a produção de componentes de telecomunicação e equipamentos eletrônicos de alto valor agregado, a indústria de circuitos e semicondutores americana sofreu. A China representa um consumo de aproximadamente 26% da produção americana deste setor, o que nos indica apenas uma breve ideia do quão grande foram as perdas geradas pela redução de demanda dos produtos manufaturados nos EUA.

Vieram então os pacotes de ajuda do governo. Estes programas foram lançados em diferentes fases e somariam USD 3 trilhões, o que certamente colaborou para a recomposição da indústria no geral.

4. Como a tecnologia pode ajudar as indústrias de manufatura durante e após essa crise? É possível dizer que a COVID-19 acelerou os processos de transformação digital?

As tecnologias emergentes se consolidaram assim como o futuro dos negócios. As empresas mais e mais enxergam a transformação digital como necessidade, mesmo enquanto há dúvidas e desafios quanto a sua implantação. 

O setor de tecnologia está repleto de chavões e frases, com a transformação digital sendo um desses termos que muitas empresas aspiram a empreender. Porém, quando confrontados com a realidade, sua implementação é difícil enquanto conduzimos os negócios como de costume. No entanto, existem exemplos impressionantes em que as empresas mudaram de curso e transformaram seus negócios, integrando a tecnologia digital para mudar fundamentalmente a maneira como operam e como agregam valor aos clientes.

5. Indústrias que já estavam mais adiantadas na aplicação dos conceitos de indústria 4.0 terão menos dificuldades para passar por esse momento incerto? Quais fatores serão decisivos para a retomada da produção industrial no mundo?

Transformar um negócio dessa maneira não é simples e requer uma tremenda quantidade de coragem e liderança visionária. Os elementos principais incluem: migração de sistemas locais para nuvens híbridas, modernização de software financeiro e operacional, melhoria da experiência do cliente usando a tecnologia e criação de um ambiente de trabalho mais dinâmico e flexível. Em resposta às nossas “lições de casa” e outras medidas de bloqueio devido à pandemia do COVID-19, muitas empresas adotaram alguns desses elementos, usando a tecnologia por necessidade; esse afastamento dos negócios normais pode ser o primeiro passo significativo no caminho da transformação digital.

Embora permitir que a força de trabalho seja flexível seja apenas uma pequena parte da transformação digital, esta traz consigo a necessidade de garantir que os serviços sejam implementados com segurança. Os dispositivos precisam ser protegidos contra muitos tipos de riscos, incluindo roubo e interferência. O uso de criptografia de disco, habilitar autenticação multifatorial forte e usar a tecnologia VPN para acessar dados são apenas considerações mínimas a serem feitas. Os aplicativos e as ferramentas para permitir a produtividade remota precisam ser examinados e configurados para proteger os dados e o material confidencial da empresa, e os colaboradores precisam estar mais conscientes de golpes como phishing, além de manter o mais alto nível de comprometimento comercial para com a comunicação.

A recuperação dessas experiências passadas ocorreu de várias formas. Muitas empresas criaram equipes de resposta a emergências que escreveram um novo protocolo para abordar vários elementos da logística total de suprimentos. Eles incluíram tudo, desde o gerenciamento melhor e simples das profundidades dos itens de inventário "A & B" até a localização de fontes alternativas de suprimento, até o controle das opções de logística.

6. Qual será o legado dessa crise para a indústria?

Acredito que a maior lição que todos estão tirando dessa crise é a necessidade de cadeias de suprimentos mais localizadas e robustas. Existe um nível crítico de autossuficiência de fabricação, necessário para os interesses econômicos, de saúde e de segurança nacional. Em segundo lugar, acredito que a clara proposta de valor que níveis mais altos de automação proporcionam em tempos de distanciamento social e capacidade limitada de viajar - a automação pode aumentar essa lacuna e manter os níveis de produção elevados, ao mesmo tempo em que apoia a segurança do trabalhador.


Achilles P. Arbex ingressou na AMT como General Gerente do Centro de Tecnologia AMT São Paulo em Sorocaba, Brasil, em maio de 2013. Achilles se formou em Engenheiria de Automação e Controle e pós-graduado em Gerenciamento Estratégico de Projetos do ITA - Instituto de Tecnologia Aeronáutica em São José dos Campos, SP, Brasil. Antes da posição atual na AMT, Achilles ocupou cargos na ZF Brasil, ZF Alemanha e Dana Industries. A experiência de Achilles envolve desenvolvimento de negócios e investimento industrial no Brasil em empresas nacionais e internacionais e em vários segmentos industriais, incluindo automotivo, aeroespacial, elétrico e eletrônico, petróleo e gás, energia alternativa e outros.