Diante das incertezas enfrentadas pela indústria nos últimos anos, uma questão estratégica tem sido levantada. Como manter a competitividade e fazer investimentos com segurança para crescer no mercado? Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), os indicadores de produção avançaram, mas a intenção de investimento recuou. É preciso repensar métodos.
De acordo com Rodrigo Pascoal, CEO da RP Brasil Consultoria, é natural que os empresários do setor de manufatura tenham mais critérios para investir nos momentos de incertezas. No entanto, a respectiva cautela não pode paralisar as ações. “Uma indústria que deixa de investir em manutenção, eficiência, tecnologia ou modernização pode proteger o caixa no curto prazo e perder a competitividade no médio prazo”, explica.
A título de informação, a Sondagem Industrial da CNI revela que o índice de evolução da produção nacional chegou a 51 pontos no último mês de julho, após uma alta de 2,6 pontos. Acima de 50, os indicadores apontam crescimento. No entanto, a intenção de investimento caiu de 53,2 para 52,6 pontos em agosto.
Por sua vez, o Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) melhorou, mas continua abaixo dos 50 pontos. Entre os principais motivos desse medo estão os juros elevados, os custos de produção e a pressão dos produtos importados.
Rodrigo diz que, diante destes dados, cada real investido passa a ser mais questionado mesmo, uma vez que a indústria precisa saber a efetividade de um investimento. Ou seja, quais problemas ele resolverá, o retorno gerado e em quanto tempo. “Quando existe abundância de capital e uma perspectiva muito positiva de crescimento, projetos com retorno mais longo conseguem avançar com maior facilidade”.
Como analisar para investir?
Conforme o nosso especialista, um investimento na indústria não começa necessariamente pela compra de máquinas, equipamentos ou a expansão do chão de fábrica. A gestão pode optar pela avaliação da capacidade instalada para descobrir o quanto ela vem sendo utilizada.
A ideia é saber ainda o que pode estar limitando a produção, como possíveis paradas não planejadas, setups demorados, retrabalhos, falhas de manutenção, desperdícios, entre outros gargalos. Tudo isso pode atrapalhar mesmo quando a empresa possui capacidade física disponível.
“Nem todo crescimento precisa partir de uma fábrica maior, uma nova linha ou mais equipamentos”, esclarece Rodrigo. Para ele, muitas vezes a capacidade escondida, conforme citamos, pode ser descoberta e melhorar a operação. “Quando você identifica os gargalos e aumenta a disponibilidade dos ativos, por exemplo, consegue produzir mais utilizando melhor aquilo que já possui”, alerta.
Não investir pode ser perigoso
É muito importante, segundo Rodrigo, considerar, além do valor de cada investimento, os custos de manter a ineficiência. Em suma, de não investir. Sim, porque falhas recorrentes, consumo energético elevado, manutenções de emergência e perdas de produção tendem a gerar despesas contínuas.
Ele acredita que o CAPEX industrial é visível porque aparece imediatamente no orçamento, então, é mais fácil de organizar. “Mas a ineficiência costuma ser mais silenciosa. Ela aparece todos os dias em pequenas perdas e acaba sendo incorporada ao custo normal da operação”, pontua.
Investimento, tecnologia e os resultados
Sabemos que a digitalização da indústria ampliou as chances de competitividade. Mas é preciso considerar tudo ao redor. Adotar tecnologias apenas para dançar conforme a música pode ser perigoso, pois não são as ferramentas que garantem retorno.
Rodrigo explica aos leitores do portal A Voz da Indústria que cada projeto deve partir de uma tese de retorno. Ou seja, objetivos e indicadores devem ser definidos antes de qualquer tipo de investimento.
“A tecnologia não pode ser aprovada apenas porque é moderna. Ela precisa resolver um impacto empresarial. Quando conseguimos transformar o benefício técnico em impacto operacional e financeiro, a decisão fica muito mais racional”, completa.
Neste cenário, existe também uma outra alternativa, que é dividir projetos maiores em etapas. A ideia é começar por ativos ou processos críticos, bem como utilizar os resultados iniciais para orientar as fases seguintes. Tal estratégia pode minimizar o desembolso imediato e permitir que a indústria dê passos importantes rumo à modernização. Entretanto, sem perder o controle. Rodrigo alerta que grandes projetos não precisam de um grande desembolso imediato.
“Quando existe arquitetura e planejamento, é possível construir uma jornada de modernização por etapas sem perder a visão do todo”.
Ele quer dizer que, mais do que decidir entre investir ou não investir, o desafio da indústria está na definição dos aportes. “Trata-se de escolher projetos que aumentem a produtividade, reduzam os riscos, melhorem as operações e preparem a empresa para crescer”, termina o especialista.
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