O professor e pesquisador Marcos José Alves Pinto Junior, do CEETEPS e Unicamp, apresentou no Palco FEIMEC uma visão transformadora sobre a relação entre Indústria 4.0 e práticas ESG.

Para ele, a digitalização não é apenas uma ferramenta de automação, mas o coração da competitividade sustentável.  

“O ESG só ganha escala quando deixa de ser pauta de relatório e passa a ser a arquitetura da operação”, afirmou Marcos. Para ele, o grande equívoco das organizações é enxergar sustentabilidade como algo distante da rotina produtiva. “Muitas vezes a gente vê práticas de implementação que não são duradouras. As organizações precisam olhar o ESG como algo que pode contribuir para a competitividade”, destacou.  

O pesquisador enfatizou que práticas sustentáveis já existem no dia a dia industrial, mas não são reconhecidas como tal. “Uma redução de retrabalho numa empresa, você contribui para o ESG. Quando você reduz sucata, refugo, você já está contribuindo para o ESG. Não estamos falando de coisas distantes da realidade industrial”, explicou.  

Digitalização é o coração da transformação  

Segundo Marcos, a digitalização é fundamental para traduzir a vida operacional em dados concretos e em tempo real. “A digitalização é como a gente compreende a vida do chão de fábrica e traduz isso em números. Não é somente a utilização de computador ou software, é como a gente traduz a operacionalização da empresa com dados reais”, pontuou.  

O professor ilustrou: “Imagina que no final do mês você recebeu que tinha uma máquina de ar comprimido que teve um excedente em uso de energia. Não seria diferente se você tivesse um sensor monitorando a máquina e soubesse que em um determinado momento daquele dia ela teve uma elevação do pico de energia?”  

IoT e sensores para visibilidade em tempo real  

A implementação de Internet das Coisas (IoT) e sensores permite monitoramento contínuo de consumo de energia, paradas de linha, defeitos e retrabalho. “O ganho central é essa visibilidade operacional. Essa visibilidade em tempo real permite tomar uma decisão concreta e muito rápida dentro do planejamento operacional”, afirmou Marcos.  

Ele ressaltou que a tecnologia não economiza sozinha: “Ela revela onde agir e permite o controle contínuo. Se conseguimos implementar uma melhoria de maneira padronizada, temos uma melhoria contínua automaticamente.”  

manutenção preditiva foi destacada como elemento fundamental para sistemas de manufatura sustentáveis. “Com dados, aplicação de inteligência artificial, sensores e IoT, conseguimos ter uma manutenção planejada com base na realidade da máquina”, explicou o pesquisador.  

Diferente da manutenção preventiva tradicional, que troca componentes por cronograma, a preditiva atua apenas quando necessário. “Se o monitoramento detecta uma trepidação na corrente muito mais acentuada que os níveis anteriores, a inteligência artificial pode fazer uma análise e indicar que preciso trocar essa corrente. Você vai trocar naquilo que realmente faz sentido”, detalhou Marcos.  

Integração produção e sustentabilidade  

Um dos pontos abordados foi a necessidade de integrar indicadores operacionais com métricas ESG. “Integre os KPIs operacionais com os de ESG. Automaticamente esses KPIs que são rotineiros numa empresa, como produção, retrabalho, perdas, defeitos, já contribuem para ESG. Faça uma métrica integrada”, orientou.  

O professor enfatizou que controlar defeitos em tempo real e traduzir isso em quantidade de recurso desperdiçado é fundamental. “Não estou falando que você tem que deixar de controlar a perda. Você tem que controlar defeito em tempo real, onde acontece, porque acontece, mas integrar essa quantidade de defeito e traduzir isso em desperdício”.  

Dados e urgência de ação  

O pesquisador apresentou números que justificam a urgência da transformação. Segundo a Agência Internacional de Energia, 38% do consumo final global de energia e 24% das emissões totais de CO2 estão associados à indústria. “A industrialização está no centro da discussão. Se ela está no centro da discussão, automaticamente está no centro da solução”, afirmou.  

Marcos também citou dados do Global Carbon Project indicando 425,7 PPM de CO2 na atmosfera em 2025, comparado a 280 PPM na época pré-industrial. “Isso não é um inventário anual, é um acúmulo de gases dentro do efeito estufa. Por isso a industrialização é significativa no ponto de soluções globais”, alertou.  

Por onde começar? 

Para organizações que desejam iniciar essa jornada de digitalização para a sustentabilidade, Marcos sugeriu um roteiro prático:  

  1. Medir aquilo que importa: Implementar digitalização e sistemas de medição robustos.  
  1. Priorizar casos de uso de alto retorno: Começar por processos com muitos desvios ou problemas de qualidade.  
  1. Integrar KPIs operacionais com KPIs ESG: Traduzir métricas de produção em indicadores de sustentabilidade.  
  1. Escalar com governança: Definir responsáveis e metas claras desdobradas para todos os níveis.  

“Comece pequeno. Pegue o pior processo que tem, aquele que nunca atinge o nível de produção esperado, e aplique conceitos de digitalização. A partir do momento que você implementou num processo que era ruim e conseguiu transformá-lo, automaticamente aprendeu. Nos próximos processos será mais fácil.” 

Marcos encerrou sua apresentação com uma reflexão sobre o futuro industrial:
“A indústria do futuro não será apenas mais automatizada. Ela será mais inteligente no uso de energia e materiais, mais previsível em seus ativos, mais transparente em seus dados e mais capaz de converter tecnologia em competitividade sustentável”.  

Ele também alertou para mudanças no comportamento de compra. “Na Europa, muitas empresas já não compram de outras que não tenham práticas ESG”. 

ESG e competitividade não são opostos, mas aliados estratégicos quando mediados pela digitalização inteligente. “Sem medir, não há como gerenciar. Sem digitalização, medir em escala se torna lento, parcial e não se traduz em dados concretos para a organização”, concluiu o pesquisador.

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