A descarbonização industrial tornou-se uma tendência global, impulsionada tanto pelos benefícios ambientais quanto pela redução de custos operacionais. Atualmente, a indústria é o maior setor emissor de CO₂ no planeta, responsável por cerca de 30% das emissões globais. Diante desse desafio, empresas de tecnologia estão investindo em inovação e desenvolvendo soluções para transformar esse cenário e acelerar a transição para práticas mais responsáveis. 

O assunto foi tema do painel “Tecnologia, Produtividade e Descarbonização – O futuro da indústria limpa com retorno financeiro”, que aconteceu no espaço Parque de Ideias na edição comemorativa de 10 anos da FEIMEC. A apresentação foi conduzida pleo CEO da GLR Tech Solutions, Felipe Burman. 

O futuro da indústria   

Apesar dos avanços, alguns setores permanecem como grandes desafios para a descarbonização, conhecidos como “hard-to-abate”. Entre eles estão os segmentos de cimento, químicos e metais, que apresentam altos índices de emissão. O aço, por exemplo, responde sozinho por 9% das emissões globais, superando até mesmo o total gerado por toda a aviação mundial combinada. 

Diante desse cenário alarmante, o Acordo de Paris estabelece uma meta ambiciosa: reduzir 45% das emissões industriais até 2035. A urgência é clara, e o mundo enfrenta uma verdadeira corrida contra o tempo para alcançar esses objetivos. 

No Brasil, a descarbonização da indústria de base ganhou força em 2025, impulsionada por iniciativas governamentais e parcerias internacionais estratégicas. Essas ações têm colocado o país em posição de destaque na busca por soluções sustentáveis, promovendo inovação e competitividade no setor industrial enquanto contribuem para a preservação do meio ambiente. 

Entre os avanços mais marcantes, destaca-se o acordo firmado entre o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e o Instituto de Pesquisa em Sustentabilidade da Schneider Electric, com o objetivo de acelerar a agenda de descarbonização e promover soluções inovadoras para reduzir emissões. 

Em 2025, o Brasil alcançou um marco histórico ao conquistar o primeiro lugar no Programa de Descarbonização da Indústria (PID), promovido pelo Fundo de Investimentos Climático (CIF). Esse reconhecimento garantiu ao país acesso a R$ 1,3 bilhão em financiamento, destinado à ampliação de tecnologias limpas e circulares, como o uso de hidrogênio verde e materiais de baixo carbono.  

Esses recursos prometem transformar a indústria nacional, tornando-a mais competitiva e alinhada às metas globais de sustentabilidade. 

Durante a COP30, realizada em novembro, o vice-presidente Geraldo Alckmin apresentou a consulta pública da Estratégia Nacional de Descarbonização Industrial (ENDI). A iniciativa busca posicionar a transição energética como um motor de desenvolvimento econômico sustentável, promovendo a modernização da indústria brasileira e incentivando a adoção de práticas mais eficientes e ambientalmente responsáveis. 

Além disso, os governos do Brasil e do Reino Unido se uniram para criar um projeto que tem como objetivo acelerar o desenvolvimento e a adoção de tecnologias limpas no setor industrial brasileiro: a Incubadora de Descarbonização Industrial (ID Incubator). 

A ID Incubator é liderada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) em parceria com o Departamento de Segurança Energética e Net Zero (DESNZ) do Reino Unido, com implementação da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO) e execução da Energy Systems Catapult. 

A iniciativa também conta com a participação de CINK Group, ABGI, KPTL e Neo Ventures. 

A incubadora é um dos pilares do Hub de Descarbonização Industrial (ID Hub), plataforma bilateral lançada na COP28 para mobilizar recursos financeiros e técnicos para impulsionar a transição do Brasil rumo a um futuro industrial de baixo carbono. 

Com um aporte inicial de aproximadamente R$ 8 milhões, financiados pelo governo britânico, a ID Incubator apoiará até 20 empresas e startups, que são etapas de investimento.  

O objetivo do investimento é desenvolver projetos que conectem soluções tecnológicas inovadoras às demandas de descarbonização de setores-chave da indústria nacional, como aço, alumínio, vidro e cimento. 

Tecnologia como aliada na redução de emissões 

 A Inteligência Artificial (IA) tem sido uma ferramenta essencial e estratégica para impulsionar a redução de emissões, otimizar processos industriais e elevar a eficiência operacional, tornando a transição para uma economia de baixo carbono mais viável e competitiva.  

Para o mestre em ciências ambientais pela Tel Aviv Univ, presidente do Núcleo Temático de Impacto e Sustentabilidade no IBREI e CEO da GLR Tech Solutions, Felipe Burman, a tecnologia deixa de ser apenas um suporte e se torna o eixo principal que direciona a nova fase da descarbonização, convertendo obstáculos em possibilidades para um futuro mais sustentável. 

“A sustentabilidade hoje exige que produzamos e consumamos de maneira equilibrada, minimizando os impactos nos recursos naturais e no meio ambiente. E é aqui que a tecnologia desempenha um papel fundamental. Ela nos permite avançar na descarbonização, não apenas capturando CO2, mas também reduzindo outros gases poluentes que causam danos significativos, como o NOX, que provoca chuva ácida e afeta florestas, oceanos e lagos”, reforça Burman. 

A pressão regulatória chegou pra ficar  

A descarbonização deixou de ser apenas uma questão ambiental e passou a ser uma estratégia financeira indispensável para a indústria. Hoje, reduzir impactos ambientais é mais vantajoso economicamente do que permanecer inerte diante dos desafios climáticos.  

O custo invisível de “não fazer nada” está se tornando cada vez mais evidente. Cada ano sem ação gera prejuízos que vão além das finanças, afetando diretamente a sustentabilidade dos negócios.  

A pergunta que surge é: quanto custa não descarbonizar? Estimativas globais apontam que o impacto pode chegar a centenas de trilhões de dólares. No Brasil, multas por infração ambiental já ultrapassam os 50 milhões de reais. Na Europa, esses valores podem chegar a 15 milhões de euros, ou 3% do faturamento mensal.  

Burman explica também outros 3 prejuízos de não descarbonizar: 

  • Perda de contratos: indústrias sem certificação ambiental perdem acesso a cadeia globais. Etima-se que 65% das grandes empresas já eliminam fornecedores sem metas climáticas. 
  • Custo de Capital: empresas sem estratégia ESG pagam até 150bps a mais em taxas de juros. O “green premium” de acesso a crédito é real e crescente. 
  • Risco regulatório: ativos stranded: equipamentos e plantas que perdem valor de mercado com mudanças de regulação. O risco já está precificado por seguradoras globais.  

Dados da Deloitte revela o custo global do efeito “Do Nothing”, ou seja, caso nada seja feito. O prejuízo para a economia global chegarará a 178 trilhões de dólares nos próximos 50 anos.  

Para a indústria brasileira especificamente, segundo pesquisas da FGV, a perda de competitividade pode chegar até 2,3 trilhões de reais, até 2040, sem nenhuma ação estrutural.  

Burman explica que a indústria precisa repensar seus processos e adotar tecnologias integradas que não apenas atendam às exigências regulatórias, mas também maximizem a eficiência e reduzam custos.  

“Os sistemas legados de controle ambiental foram projetados para atender apenas ao compliance mínimo, sem priorizar a eficiência máxima. Isso resulta em uma abordagem fragmentada e redundante, onde diferentes tecnologias são utilizadas para controlar emissões, capturar material particulado, NOx, SOx e ácidos, sem uma integração eficaz. Um exemplo claro disso pode ser observado em caminhões, que muitas vezes operam como “caixas pretas” repletas de soluções desconectadas”. 

A descarbonização não é apenas uma necessidade ambiental, mas uma oportunidade estratégica para transformar o setor industrial e garantir sua competitividade em um mundo cada vez mais orientado pela sustentabilidade. 

Um exemplo de como a tecnologia trabalha a favor da descarbonização é a plataforma única de lavagem dinâmica de gases poluentes desenvolvida pela GLR Tech. Ela combina, em um único sistema compacto com quatro capacidades integradas de alto impacto. São elas: 

  1. Lavagem dinâmica de gases: Tecnologia proprietária de lavagem multipoluentes — única no mercado a tratar simultaneamente NOx, CO, CO₂ e material particulado (PM2.5/PM10) 
  1. Waste to Energy: Recuperação energética dos gases tratados, gerando economia de 2% a 10% no consumo de combustível do processo 
  1. Monitoramento em tempo real: Sistema integrado de medição, reporte e verificação (MRV) contínuo das emissões, com dados em tempo real para conformidade regulatória 
  1. Economia circular: A água residuária gerada no processo de lavagem é tratada e transformada em subprodutos, eliminando descarte e gerando valor adicional — fechando o ciclo produtivo com zero desperdício. 

Esse processo pode gerar uma diminuição de emissões de dióxido de carbono de até 65%, taxa de conversão de monóxido de carbono de 99%, eficiência de remoção de óxidos de nitrogênio de 95% e redução de Capex de até 30%.  

A indústria limpa e lucrativa é uma tendência. O mercado global de monitoramento ambiental industrial cresce a 12,4% ao ano e deve atingir US$ 28 bilhões até 2028.  

Segundo Burman, há três forças convergentes que estão redesenhando a indústria global nos próximos 10 anos: 

  • Monitoramento em Tempo Real: a Indústria do dado ambiental 
  • Economia Circular: resíduo zero é meta, não slogan 
  • Carbono Como Ativo: o carbono está se tornando a moeda da transição energética 

Com mais de 220 mil indústrias potencialmente elegíveis para iniciativas de redução de emissões, o país avança em direção a um futuro mais sustentável, apoiado por políticas públicas e recursos financeiros significativos. 

“O mercado brasileiro de descarbonização industrial é estimado em R$ 130 bilhões de oportunidade até 2030. O potencial de descarbonizaão no Brasil está em ascenção”, reforça o especialista. 

Um dos principais marcos nesse processo é a implementação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), o mercado regulado de carbono, que está em fase final de desenvolvimento. Esse mecanismo promete incentivar empresas a reduzir suas emissões, ao mesmo tempo em que cria um mercado robusto para créditos de carbono. 

Além disso, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) disponibilizou R$ 32 bilhões para financiar projetos de descarbonização industrial, oferecendo suporte financeiro essencial para que empresas adotem tecnologias limpas e inovadoras.  

A indústria brasileira, responsável por cerca de 450 milhões de toneladas de CO₂ equivalente por ano, apresenta um enorme potencial para a geração de créditos de carbono. Esse volume de emissões não apenas destaca a necessidade de ações urgentes, mas também evidencia a oportunidade de transformar passivos ambientais em ativos financeiros, contribuindo para a transição energética e o desenvolvimento sustentável. 

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