Além de um insumo operacional, a água é também uma fonte de estratégias para a indústria. O mercado tem pressionado cada vez mais as empresas com relação ao uso dos recursos hídricos diante das perspectivas de crescimento do respectivo consumo.
Nesse contexto, é fundamental avançar em ações que favoreçam a eficiência hídrica, o monitoramento e o reúso da água para reduzir as interrupções e os custos inesperados.
A Voz da Indústria falou com Lorena Zapata, diretora de novos negócios e sustentabilidade da Engeper Ambiental e Perfurações, que aposta na gestão da água para nortear as decisões financeiras e estratégicas da indústria. Ou seja, o recurso não pode estar restrito à questão ambiental. “O maior risco hídrico da indústria não está necessariamente no preço da água, mas na falta de previsibilidade sobre a sua disponibilidade”, completa.
Por falar nisso, o Sistema Cantareira (SP) traz um cenário que fortalece o alerta da especialista. Este ano começou na Faixa 3, com limite de captação de até 27 metros cúbicos/segundo pela Sabesp.
E o que isso significa para a indústria? Que pode haver mudança no custo da água e também na capacidade das operações.
Consumo industrial cresce e deve ser considerado
Segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), a indústria respondeu por 9,9% das retiradas de água para usos consuntivos no Brasil em 2024, com vazão estimada em 207,3 metros cúbicos/segundo.
Para os próximos anos, a agência estima a necessidade de um planejamento minucioso e projeta um crescimento do uso industrial superior a 125 bilhões de litros por ano até 2040.
Para Lorena, “uma empresa pode até absorver uma elevação de custos, rever fornecedores ou ajustar processos, mas tem muito menos margem de manobra quando a água necessária para manter uma operação deixa de estar disponível nas condições esperadas”.
Logo, é preciso ir além de saber o volume total captado. A indústria deve analisar suas principais fontes de consumo, identificar perdas, acompanhar as variações e avaliar possíveis processos que permitam uma redução, recuperação ou o reaproveitamento hídrico.
Eficiência hídrica com foco nos dados
Conforme explica a especialista, algumas ferramentas podem dar visibilidade ao comportamento do consumo hídrico. Entre elas, telemetria, medição setorizada e balanços esporádicos.
Isso porque, quando estão associadas ao monitoramento contínuo e à manutenção preventiva, tais soluções podem identificar desvios antes que se transformem em algo maior, como desperdícios e/ou problemas operacionais. “É nesse ponto que a eficiência hídrica precisa ser retirada do campo restrito da economia de litros e colocada dentro da lógica de produtividade”, ressalta Lorena.
Ela diz que tanto o tratamento quanto o reúso de efluentes tendem a reduzir a dependência das fontes convencionais. Mas desde que haja viabilidade técnica e regulatória. Inclusive, Lorena cita que tecnologias de tratamento, tal como a eletrodiálise reversa, podem ampliar as possibilidades de aproveitamento de águas que antes não poderiam ser utilizadas diretamente.
Além de tudo, a diretora afirma que, tão importante quanto adotar tecnologias específicas, as informações geradas (dados) tendem a orientar as decisões.
Dessa forma, uma empresa que conhece o seu consumo conforme cada etapa pode estabelecer indicadores, localizar pontos críticos e direcionar investimentos para processos com maior potencial de redução da dependência hídrica.
O reúso na mira da indústria
Além de toda a conscientização, planejamento e uso de ferramentas efetivas, é fundamental que a indústria de manufatura fique atenta à evolução regulatória com relação ao reúso da água. A saber, em 2025, a ANA iniciou a elaboração de uma norma de referência para o reúso de efluentes tratados.
Já em janeiro deste ano, a entidade abriu uma consulta pública sobre diretrizes para o reúso não potável. Nossa especialista afirma que “não existe, evidentemente, uma fórmula única para todas as plantas industriais. Porém, o erro está em esperar a escassez para começar a fazer um diagnóstico”.
Então, a indústria deve se antecipar a esse movimento todo? Com certeza.
Lorena alerta que esse preparo pode fazer a diferença entre administrar uma transição planejada e reagir a uma crise. “A resposta transforma a água de uma rubrica operacional em uma variável estratégica”, finaliza
Como sua indústria se organiza na gestão de recursos hídricos? Sobre esse tópico, entenda também as obrigações de ESG para indústrias.