Muito se tem falado sobre o avanço do El Niño 2026/2027 porque o tema coloca o clima no radar estratégico da indústria. Os respectivos efeitos podem impactar diversas questões relacionadas à eficiência energética, incluindo o abastecimento de água, a logística, os custos e a continuidade das operações. 

A propósito, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), junto com outros órgãos que integram o Painel El Niño 2026/2027, indica que o fenômeno deve permanecer até o início do ano que vem, sendo mais intenso entre a primavera e o verão. 

Segundo Vitor Hassan, head de negócios da Climatempo, o El Niño não impacta o Brasil de maneira uniforme, mas o desafio está no excesso de chuva, nas enchentes, no calor persistente, na baixa umidade, no aumento do risco de queimadas e na demanda por energia. “O ponto central é transformar previsão climática em planejamento operacional”, explica. 

Gestão energética 

Na indústria, a combinação dos fatores citados por Vitor exige uma atenção especial à gestão energética. Em épocas de calor intenso, por exemplo, o chão de fábrica precisa ainda mais de climatização e refrigeração, o que aumenta a sobrecarga nas hidrelétricas. E, dependendo do cenário, a indisponibilidade hídrica pode ampliar a participação das fontes de geração com custos mais elevados. 

Conforme o especialista do Climatempo, o impacto da temperatura sobre a eletricidade vem sendo analisado em escala internacional. Aliás, a própria Agência Internacional de Energia (IEA), diz que o Brasil e outros 39 países têm registrado recordes de demanda por eletricidade durante as ondas de calor. O ano de 2024 está no topo do ranking. 

Por aqui, a entidade aponta que cada aumento de 1°C na temperatura está associado a um acréscimo de cerca de 3,6 GW da demanda de pico. 

Tudo isso significa que, para a indústria, a eficiência energética não é apenas uma iniciativa voltada à redução de custos, mas uma ferramenta para ampliar a previsibilidade econômica e diminuir a exposição às oscilações do sistema elétrico. 

Para Ricardo Kenji, diretor da Eletron Energia, “a eficiência energética é uma estratégia de proteção financeira e de competitividade”. 

Como a energia é consumida pela indústria? 

Na prática, os assuntos relacionados ao El Niño mostram que é preciso direcionar o olhar para onde e como a energia vem sendo consumida pela indústria. A lista compreende equipamentos de alto consumo, sistemas térmicos, motores, a própria iluminação, a climatização e as linhas de produção. Tudo isso deve ser avaliado para identificar os desperdícios e as oportunidades de otimização. 

Ainda conforme Ricardo, “a modernização de equipamentos, o monitoramento em tempo real, a automação e a revisão dos processos produtivos permitem ganhos permanentes de eficiência”. 

Resiliência climática: adaptação é para ontem! 

Diante do cenário aqui apresentado, com um clima imprevisível, o universo da manufatura tem uma certa urgência para agir. Mesmo porque, o terceiro boletim do Painel El Niño 2026/2027 aponta probabilidade superior a 90% de ocorrência de eventos fortes até o mês de novembro deste ano. 

Ou seja, é essencial que a indústria tenha um planejamento energético e incorpore estratégias climáticas variáveis a ele para antecipar períodos de maior consumo, bem como revisar processos e priorizar investimentos. 

Há uma lógica? Sim. A de mostrar que a eficiência pode ser uma tática de proteção operacional. Porque, quanto menor for o desperdício, maior será o controle sobre o consumo. Fora isso, a vulnerabilidade das operações diante das condições externas adversas também será menor. 

De acordo com o diretor da Eletron Energia, não é possível controlar o clima, mas é possível administrar a maneira como a energia é utilizada. “As empresas que investirem desde já em eficiência energética estarão mais preparadas para enfrentar períodos de maior volatilidade no setor elétrico e preservar a competitividade”, finaliza.