Mais uma vez, o portal A Voz da Indústria aborda os conceitos Lean e Agile, agora, com foco específico no setor industrial. Para recapitular, o primeiro trata-se de um sistema de gestão e organização, enquanto o outro vem do desenvolvimento de softwares para adaptações e avanços. Como ambos podem ser trabalhados na indústria?
Segundo Christopher Thompson, diretor do Lean Institute Brasil (LIB), a manufatura está entre os ambientes mais interessantes para a respectiva integração, uma vez que a fronteira entre o mundo físico e o digital tem sido rompida.
“Uma fábrica moderna não é mais formada apenas por máquinas, materiais e operadores. Ela compreende software, dados, automação, IA, engenharia, supply chain e a tomada de decisões continuamente.”
Para o especialista, o Lean continua sendo fundamental para que as empresas enxerguem o fluxo de valor de ponta a ponta, de modo a compreender como o trabalho realmente acontece. Já o Agile pode ser extremamente útil no desenvolvimento de produtos, na engenharia, em softwares, automação e diversos experimentos necessários para transformar os processos.
A tecnologia também precisa de suporte
Outro ponto destacado por Christopher sobre a indústria é que a tecnologia necessita de suporte. “A IA já pode apoiar a previsão de demanda, a manutenção preditiva, a qualidade, a análise de problemas, além de inúmeras atividades de gestão. Porém, existe um princípio fundamental, tecnologia aplicada sobre desperdício pode simplesmente produzir desperdício mais rápido”, explica.
Logo, tanto o Lean quanto o Agile ajudam a apoiar uma indústria mais humanizada, onde pessoas e tecnologia trabalham em conexão. “Juntas, geram mais valor do que isoladamente”.
Como implementar o Lean e o Agile na indústria?
“Muitas organizações começam dizendo ‘vamos implementar Agile, vamos implementar Lean’, mas eu considero que é necessário primeiramente saber quais problemas devem ser resolvidos. A partir de então, vale compreender o fluxo de valor no qual o respectivo gargalo acontece e tornar a condição atual visível”, detalha o diretor.
Ou seja, é preciso que a indústria saiba como o fluxo de valor flui, onde estão as esperas, os retrabalhados, as decisões, os pontos negativos e os desperdícios. Depois, é importante redesenhar o trabalho, de modo a simplificar o processo e definir as condições a serem alcançadas.
Ainda conforme Christopher, a partir daí, são usados ciclos curtos de experimentação tanto de Lean quanto de Agile para testar hipóteses e aprender e ajustar rapidamente o caminho. “Na indústria, devemos perguntar onde a tecnologia realmente pode multiplicar esses novos processos”, sugere.
Ele adianta que pode ser na automação, dados, software, sensores, analytics ou IA. A tecnologia deixa de ser o ponto de partida para se tornar um poderoso habilitador da transformação.
“Precisamos criar um sistema de gestão que sustente uma nova fonte de trabalho, com gerenciamento diário, gestão visual, solução estruturada de problemas e o desenvolvimento contínuo de pessoas. E somente depois de aprender suficientemente com esses primeiros fluxos faz sentido escalar o Lean e/ou o Agile.”
Como gerenciar os conceitos na indústria?
Um dos mecanismos mais importantes no Lean, por exemplo, é o gerenciamento diário. Ele conecta estratégias e operações por meio de ciclos muito curtos de gestão, próximos de onde o trabalho acontece. Logo, a equipe disponível observa a condição real, compara o esperado, identifica desvios, compreende problemas e reage rapidamente. Mas, de acordo com Christopher, os indicadores devem estar conectados ao propósito.
“Podemos ter métricas de resultado, como qualidade, segurança, entrega, custo e satisfação do cliente, além de métricas do fluxo, como lead time, estoques, trabalho em processo, retrabalho ou OEE quando fazem sentido. Tem também as métricas relacionadas à inovação e ao aprendizado, como time-to-market, tempo de ciclo de experimentação e velocidade de solução dos problemas”, explica.
Como a IA pode mudar o fluxo da discussão entre Lean e Agile?
“Esse é, para mim, o ponto que torna essa discussão especialmente interessante hoje”, diz o especialista do LIB. Isso porque durante alguns anos Lean e Agile foram introduzidos na transformação digital, mas agora a IA tem mudado significativamente a escala e a velocidade dessa transformação.
Ou seja, ela amplia consideravelmente a capacidade de analisar informações, identificar padrões, gerar alternativas, automatizar tarefas e até executar partes de processos por meio de agentes.
“Mas ela não elimina as perguntas fundamentais da gestão, entre as quais, que problema estamos tentando resolver? Para quem estamos gerando valor? Como esse processo deveria funcionar? Qual trabalho deve continuar sendo realizado por pessoas e qual pode ser potencializado pela tecnologia?”
Christopher acredita que o princípio para a indústria deve ser “pense Lean, seja Agile; use tecnologia”. Porque o Lean ajuda a manter o foco no valor, no fluxo, nos problemas e nas pessoas. O Agile permite experimentar e aprender rapidamente. E a Inteligência Artificial pode multiplicar de maneira extraordinária aquilo que esse sistema é capaz de fazer.
Nosso colaborador completa dizendo que “a grande oportunidade não é simplesmente colocar IA nos processos atuais. Mas sim repensar o próprio trabalho para aproveitar simultaneamente a inteligência humana, uma forma melhor de gerir os processos e as novas capacidades proporcionadas pela tecnologia”.
Agora que você conheceu as metodologias lean, agile e suas aplicações, saiba como integrar pessoas e Inteligência Artificial na indústria.