A Inteligência Artificial já faz parte de muito processo na indústria. Segundo a Pesquisa de Inovação Semestral (Pintec), do IBGE, entre 2022 e 2024, o uso das tecnologias aumentou de 16,9% para 41,9%.

Essa expansão traz um certo otimismo? Sim. Mas levanta também a questão da qualificação profissional. Como preparar as equipes para que os ambientes orientados por dados sejam cada vez mais produtivos?

De acordo com Claudio Anjos, presidente da Fundação Iochpe, o desafio da qualificação mudou hoje em dia. Não adianta preparar um profissional de maneira pontual, apenas para uma função que existe hoje, uma vez que a tecnologia muda rapidamente.

“A IA precisa entrar na formação profissional não apenas como ferramenta, mas como uma competência que envolve saber interpretar dados, tomar decisões, identificar risco e entender os limites tecnológicos”, completa.

Um mundo de oportunidades

A qualificação profissional com foco na Inteligência Artificial deve romper as barreiras dos setores de tecnologia. Na indústria, por exemplo, a IA pode ser inserida no controle de qualidade, na manutenção preditiva, na logística, planejamento da produção e também na análise dos processos. Ou seja, os profissionais envolvidos precisam compreender como tais ferramentas funcionam e como elas devem contribuir para o respectivo trabalho.

Ao que tudo indica, um dos desafios está na disponibilidade de mão de obra qualificada. Para se ter uma ideia, a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) apontou que a contratação de profissionais com IA no currículo tem sido um desafio.

Os especialistas da federação ainda destacam que a tecnologia precisa estar associada a processos bem estruturados, objetivos definidos e capacitação das equipes. “Ainda há uma lacuna significativa no mercado em relação a talentos capazes de aplicar a tecnologia de forma estratégica e eficiente”.

Fora isso, a FIEMG destacou que “a IA não pode ser tratada como solução universal. É fundamental ter processos estruturados antes de aplicá-la”.

Oportunidades e desafios na formação em tecnologia

Todo este cenário reforça a importância do desenvolvimento das competências digitais dos profissionais desde o ingresso no mercado de trabalho. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou um estudo que identifica as deficiências na aprendizagem básica e na formação em áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM).

Em 2023, apenas 15,6% dos diplomados brasileiros em cursos de bacharelado haviam concluído formações nessas áreas. “Dados mostram desafios tanto na aprendizagem quanto na capacidade de gerar valor na economia”, explica a CNI.

Ainda conforme o estudo, a produtividade do trabalho, que mede o valor gerado, em média, por hora trabalhada, é de US$ 21,2 no Brasil, de modo a considerar a Paridade do Poder de Compra (PPC).  Na educação básica, 73% dos estudantes avaliados estão abaixo do nível mínimo de proficiência em matemática, por exemplo.

Transformação via IA na prática

A qualificação dos profissionais, novos ou experientes, precisa constar na rotina das indústrias. Um exemplo de qualificação vem do programa Formare, da Fundação Iochpe, que incluiu uma unidade curricular de IA em sua formação profissional. Esse conteúdo vem sendo aplicado em diversas empresas no Brasil, como na Eaton, em Porto Feliz (SP), na Bosh, em Curitiba (PR), na Stellantis, em Porto Real (RJ) e na Maxion, em Limeira (SP).

A entidade explica que a proposta compreende três frentes, sendo aplicações práticas da IA, fundamentos de algoritmos e estruturas de dados. Ética e implicações sociais também são abordadas. O objetivo é desenvolver uma compreensão mais ampla da tecnologia, incluindo a capacidade de avaliar informações, reconhecer riscos e identificar situações cuja IA possa contribuir.

Para Claudio, existe uma diferença importante entre ter acesso à IA e estar preparado para trabalhar em um ambiente transformado por suas tecnologias.

“Precisamos reduzir essa distância. O jovem precisa sair da formação sabendo usar as ferramentas tecnológicas, mas sabendo também perguntar porque determinada decisão foi tomada, quais dados estão por trás dela e quais consequências ela pode gerar.”

E essa discussão alcança também os mais experientes. Para acompanhar a transformação, é preciso que as empresas invistam na atualização das equipes. Para isso, é essencial combinar conhecimento técnico, experiência operacional e novas competências.

O desafio está em preparar trabalhadores para utilizar IA de maneira consciente e integrada na indústria. “A capacidade crítica é tão importante quanto o domínio técnico”, conclui o presidente da Fundação Iochpe.

E quando a tecnologia já é realidade, saiba como integrar pessoas e Inteligência Artificial.