A agenda ESG compreende diversas pautas importantes, entre as quais a inclusão produtiva. Trata-se de uma estratégia, sobre a qual falaremos neste conteúdo com foco na indústria, cujo cenário exige uma parceria entre a força de trabalho e a sustentabilidade dos negócios.
Para isso, a pesquisa Horizonte Comum do Instituto PROA traz a percepção das gerações mais jovens em diversas situações no mercado de trabalho e também dos próprios empregadores. Como está essa relação hoje?
Um dos principais gargalos da indústria brasileira é a dificuldade de atrair, integrar e reter jovens talentos.
Segundo a pesquisa do instituto, o desafio da empregabilidade não está apenas na preparação dos jovens, mas também na capacidade das empresas em acolher a juventude de maneira geral. Ou seja, incluindo os jovens periféricos.
Mercado de trabalho e condições impactantes
De acordo com os dados apresentados no estudo, 69% dos jovens vivem com renda familiar de até dois salários mínimos. Além disso, enfrentam situações que impactam diretamente a sua performance, como a falta de condições adequadas para os estudos ou para trabalhar.
Fato é que, antes mesmo de pensarmos na questão de produtividade, existe uma análise estrutural que precisa ser destacada: a garantia da dignidade. “Embora a coabitação familiar não seja, por si só, um problema, o cruzamento com os dados de renda revela um cenário crítico: em muitos casos, trata-se de famílias vivendo com menos de um terço de salário-mínimo por pessoa”.
Para a indústria, por exemplo, que depende de eficiência, padronização e desempenho técnico, o respectivo cenário exige uma mudança na perspectiva. É o que aponta sutilmente o Instituto PROA.
Sendo assim, não se trata apenas de formar mão de obra qualificada, mas também de compreender o contexto social, uma vez que ele tende a moldar profissionais de todos os níveis e qualificações.
Para o instituto, “a precariedade material vivida por grande parte dos jovens se expressa também nas condições concretas do cotidiano, como falta de privacidade ou sobrecarga doméstica”.
Expectativa versus realidade
“Embora 75% dos jovens afirmem desejar construir uma carreira, mais de 45% não se sentem plenamente seguros sobre como buscar emprego formal”. Com isso, notamos que, um dos pontos centrais da pesquisa é o desalinhamento entre o que as empresas esperam dos profissionais e o que elas oferecem.
Para a indústria, vale como um alerta, pois muitos empregadores cobram proatividade, autonomia e preparo emocional. No entanto, conforme os resultados, mais da metade não oferece feedback estruturado ou programas de desenvolvimento contínuo. Plano de carreira? Menos ainda. O estudo ainda diz que: “poucas empresas possuem programas de desenvolvimento (apenas 35%) ou políticas estruturadas de permanência”.
E no que isso resulta para a indústria em especial? De maneira prática, num desalinhamento crítico. O Instituto PROA mostra que ambientes operacionais exigem adaptação rápida, cumprimento de normas e a integração de equipes técnicas. Porém, sem um onboarding cultural e um suporte inicial, o risco da rotatividade só aumenta.
Ou seja, as gerações mais jovens acabam sendo avaliadas conforme competências que ainda nem tiveram a oportunidade de desenvolver. De acordo com o estudo, esse tipo de problema foi identificado por 83% das pesquisadas.
Inclusão produtiva
Diante das informações apuradas pela pesquisa Horizonte Comum, a inclusão produtiva se mostra como uma pauta estruturante dentro da política ESG. Isso, tanto pelo impacto social quanto pelo valor estratégico que pode gerar para a indústria.
Mesmo porquê, o próprio estudo evidencia que jovens talentos buscam mais do que salários altos. Eles querem o pertencimento, bem como reconhecimento e oportunidades reais de crescimento. “No entanto, apenas 36% relatam se sentir bem-vindos no ambiente de trabalho, enquanto 33% já viveram experiências negativas como desrespeito, humilhação ou exploração”, aponta o PROA.
Tais dados devem ser especialmente considerados pelo universo da manufatura, que enfrenta diversos desafios, como o de tornar suas carreiras mais atrativas para as novas gerações.
Isto significa que, quando uma empresa investe em programas de entrada estruturados, além de mentorias e trilhas de desenvolvimento, por exemplo, reduzem a rotatividade e conseguem construir bases mais sólidas de talentos.
E como o cenário industrial, hoje, é de transformação tecnológica, melhorar a mão de obra qualificada é primordial.
A desigualdade e a tecnologia
O PROA aproveitou a pesquisa para levantar uma questão fundamental, o uso da Inteligência Artificial nos processos seletivos. A IA contribui efetivamente, mas é preciso ter um certo cuidado para que a respectiva ferramenta não reforce exclusões ao filtrar os candidatos.
A indústria mesmo vem acelerando a digitalização, portanto, esse alerta é essencial.
Qualquer tipo de processo, conforme apontou o PROA, deve ser automatizado, mas com a revisão dos critérios. Todos os talentos, principalmente os que mais precisam de oportunidades, devem ser considerados.
“Embora a Inteligência Artificial já esteja presente no cotidiano de empresas e jovens, ela opera hoje em um vácuo de mediação, cuidado e intenção inclusiva.”
O avanço da indústria em oportunidades de trabalho
Segundo a pesquisa, a inclusão produtiva exige mais do que boas intenções. É necessário estruturar as ações da indústria com algumas medidas. São elas: a revisão de critérios de seleção para cargos de entrada, a criação de ambientes seguros para a aprendizagem e o investimento na formação técnica e socioambiental. Também, programas de mediação cultural entre os jovens e as empresas.
No setor industrial, tudo isso significa novas oportunidades, principalmente para alinhar a produtividade e o impacto social em uma mesma estratégica.
Em suma, o estudo mostra que o problema da empregabilidade das gerações mais jovens não está num único responsável. Mas sim na falta de conexão entre universos. Ou seja, a inclusão produtiva merece ser vista como uma estratégia para preparar os jovens para o mercado de trabalho, incluindo a indústria, de modo que a economia do país gire por meio de uma engrenagem mais diversa, resiliente e sustentável.
“Mediar é criar pontes entre gerações, entre linguagem e escuta, entre potencial e oportunidade”, destaca o PROA.