O acordo entre o Mercosul e a União Europeia finalmente foi firmado, após 26 anos de tratativa, conforme divulgou o Governo Federal. Trata-se de um dos maiores acordos comerciais do mundo e compreende cerca de 700 milhões de consumidores. Além disso, quase um quarto do PIB global. 

Para o Brasil, em especial a indústria de manufatura, o acordo representa uma janela de oportunidades e um teste de competitividade. Mas o que está em jogo? O portal A Voz da Indústria garimpou informações relevantes, as quais você confere a seguir. 

Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (ABIMAQ), o acordo Mercosul-UE deve ser visto como um instrumento para ampliar o nosso acesso a outros mercados. “É uma grande oportunidade para os produtores de bens e serviços brasileiros atingirem um universo de aproximadamente 22 trilhões de dólares de PIB”, expõe a associação. 

Acordo Mercosul-UE em resumo 

O respectivo tratado prevê uma redução gradual de tarifas de importação e exportação, além de regras comuns para compras governamentais. Também, para propriedade intelectual, serviços e projetos de sustentabilidade. 

Para Felipe Guerini, gerente comercial da Termomecanica, a redução de tarifas na exportação de bens industriais tende a produzir efeitos diretos sobre segmentos que já operam com inserção internacional, mas enfrentam desvantagens tributárias no acesso ao mercado europeu.  

“Com a eliminação dessas tarifas, o acesso ao mercado europeu passa a ocorrer em condições mais equilibradas para a indústria brasileira e com maior previsibilidade para o planejamento de longo prazo das exportações.” 

Na prática… 

Este cenário mostra que os produtos industriais brasileiros poderão acessar o mercado europeu com menos barreiras. Enquanto isso, os bens europeus chegarão aqui em solo nacional com maior competitividade. 

No entanto, o acordo vai além da logística tarifária. Ele estabelece ainda compromissos regulatórios, ambientais e trabalhistas. Para a ABIMAQ, “a observância das regras de origem assume papel central para assegurar que os benefícios do acordo sejam direcionados às indústrias efetivamente instaladas nos países do Mercosul e da União Europeia”. 

Já Felipe diz que a abertura tende a reativar negociações com compradores históricos e criar espaço para o desenvolvimento de nichos específicos. “Isso inclui produtos de maior conteúdo tecnológico e aplicações voltadas a setores estratégicos”

Oportunidades reais para a indústria brasileira 

Com relação à indústria, o acordo pode representar um avanço importante na inserção internacional. A saber, hoje, o Brasil é considerado uma economia relativamente fechada, tendo baixa participação das cadeias globais de valor. 

A partir da abertura comercial, ganhos em potenciais se destacarão, como o acesso ampliado a outros mercados, a integração às cadeias globais e a redução de custos produtivos. Entenda melhor. 

Acesso ampliado a mercados 

Diversos setores industriais com maior grau de competitividade, como o de autopeças, máquinas e equipamentos, químicos e alimentos processados, podem ganhar espaço na Europa. Isso, principalmente se conseguirem atender aos padrões técnicos exigidos. 

Integração às cadeias globais 

O acordo visa facilitar a inserção de empresas brasileiras em cadeias produtivas internacionais, de modo a atrair investimentos estrangeiros e a estimular a modernização industrial. 

Redução de custos produtivos 

A redução de tarifas sobre insumos e máquinas importadas pode diminuir custos de produção no Brasil. Com isso, aumentar a eficiência e a capacidade de inovação. 

Riscos e pressões competitivas 

Ao passo em que o acordo Mercosul-UE traz oportunidades, ele expõe algumas fragilidades históricas da indústria brasileira. 

Entre elas, a concorrência mais intensa, uma vez que produtos europeus, reconhecidos por sua alta qualidade e tecnologia, tendem a competir diretamente com a indústria nacional. Inclusive em setores como o de bens de capital, farmacêutico e o automotivo. Ou seja, empresas menos preparadas podem perder mercado, tanto no Brasil quanto dentro do próprio Mercosul.  

Neste sentido, a ABIMAQ defende que a abertura comercial deve caminhar de forma equilibrada com uma agenda consistente de reformas internas e de competitividade. 

“O aprimoramento do ambiente econômico é fundamental para atrair investimentos, elevar a produtividade, gerar empregos de qualidade e permitir que o país deixe de ser apenas fornecedor de produtos primários, avançando na agregação de valor e no fortalecimento de sua base industrial.” 

Por sua vez, o gerente da Termomecanica resume a questão dos riscos da seguinte maneira: “entre os principais desafios do acordo estão a necessidade de adequação a padrões ambientais e regulatórios mais estritos, a modernização tecnológica dos processos produtivos, o aumento da produtividade e a redução de custos operacionais, além da maior exposição às flutuações cambiais e às dinâmicas do comércio exterior”. 

Estratégias além das expectativas 

O acordo Mercosul–UE não deve ser visto como uma solução automática para o crescimento industrial. Ele é, antes de tudo, um catalisador de transformações. 

A abertura de mercado, por si só, não garante competitividade. Sem políticas industriais, investimentos em inovação e melhorias no ambiente de negócios, o Brasil corre o risco de ampliar a sua dependência por produtos estrangeiros em vez de fortalecer a própria base produtiva. 

Por outro lado, se as oportunidades forem bem aproveitadas, o acordo pode impulsionar uma nova fase da indústria nacional, de modo que fique mais integrada, eficiente e alinhada às exigências mundo afora. Mesmo porquê, o acordo pode colocar a indústria brasileira diante de uma escolha estratégica, a de resistir à concorrência externa ou utilizá-la como estímulo para evoluir. 

Mais do que um tratado comercial, o Mercosul–UE pode representar um marco de reposicionamento. Ele exige adaptação, mas também oferece a chance de transformar o Brasil em um player mais relevante no cenário internacional. 

Tendo em vista que seus efeitos serão percebidos a médio e longo prazo, a ABIMAQ reforça que o acordo firmado é uma grande oportunidade. “Mas seu sucesso dependerá diretamente da capacidade do Brasil de realizar mudanças internas e transformar o período de transição em uma oportunidade para ganhos concretos de competitividade para a indústria brasileira”, conclui a entidade.