A nível mundial, se um país possui terras raras no subsolo tem uma vantagem estratégica. No entanto, é preciso saber como transformar este bem em produto de alto valor agregado.
Vivemos em meio a uma corrida global por minerais críticos, em que Estados Unidos e Europa buscam depender cada vez menos da China. Ou seja, a disputa não está concentrada em quem possui as reservas, mas na capacidade de dominar a cadeia industrial, a tecnologia.
Mas e o Brasil? Como pode participar? Sigamos.
Terras raras e a China
Segundo Rodolfo Midea, diretor da Fácil Negócio Importação, quando falamos em terras raras, olhamos automaticamente para o tamanho das reservas. Mas elas são apenas o começo.
“Entre tirar o minério da terra e colocar um imã dentro de um motor existe uma cadeia tecnológica e industrial enorme. É nessa cadeia que está boa parte do valor e também da dependência mundial”, explica.
Precisamos dimensionar o tamanho do desafio que há pela frente. Para se ter uma ideia, a Agência Internacional de Energia (IEA) divulgou que a China respondeu por aproximadamente 60% da mineração mundial das terras raras utilizadas em imãs em 2024. Sobre o refino, a participação do país chegou a 91%, enquanto na fabricação de ímãs permanentes sinterizados computou 91%.
De acordo com Rodolfo, a respectiva concentração é muito relevante, já que as terras raras estão presentes em tecnologias consideradas estratégicas para a indústria.
Isso porque elementos como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio são usados na fabricação de ímãs permanentes de alta performance. São também empregados em motores elétricos, na automação, robótica, em equipamentos industriais, turbinas eólicas, eletrônicos e data centers.
Dependência como risco industrial
É importante destacar que, desde a extração até o produto final que acabamos de citar, existe uma longa cadeia. O minério passa por beneficiamento, concentração, separação química e refino. Em seguida, os óxidos são transformados em metais, ligas e pós magnéticos. Só então, chegam aos imãs.
Para o diretor, é justamente neste percurso que a dependência da China se torna mais evidente. “Quando um país concentra mais de 90% de uma etapa fundamental da cadeia, qualquer mudança regulatória ou comercial deixa de ser um assunto distante e pode se transformar rapidamente em risco industrial”.
A saber, a China adotou algumas restrições em 2025, as quais mostraram esse risco para a indústria e como ele pode chegar.
Rodolfo explica que os controles de exportação sobre as terras raras pesadas, bem como compostos relacionados e determinados imãs dificultam o abastecimento de fabricantes em diversos mercados. Além disso, coloca o tema no centro das negociações comerciais entre grandes economias.
Terras raras no Brasil
Segundo o USGS, o nosso país dispõe de cerca de 21 milhões de toneladas de reservas de terras raras. Estamos bem atrás das 44 milhões de toneladas estimadas para a China, por exemplo.
Mas essa diferença nem é tão relevante se comparada à capacidade de produção. Em 2025, o Brasil produziu cerca de 2 mil toneladas, ao passo que a China chegou perto de 270 mil toneladas.
Para Rodolfo, ampliar a extração sem desenvolver as etapas seguintes não resolveria a dependência. “Podemos aumentar a extração e ainda continuar dependentes”, explica.
E o especialista continua: “se exportarmos o recurso e depois precisarmos importar o metal, a liga ou o imã pronto, capturamos apenas uma parcela do valor econômico dessa cadeia”.
Ou seja, a questão está no que o Brasil pretende construir a partir do patrimônio mineral que possui. “A pergunta para o Brasil não deveria ser apenas quem quer comprar as nossas terras raras, mas qual indústria queremos construir a partir delas?”.
O especialista ressalta que existe uma grande diferença entre ser fornecedor de um recurso mineral e participar de uma cadeia tecnológica.
A reserva mineral abastece a indústria
Onde está o principal desafio para o Brasil? Rodolfo acredita que ele passa pelos investimentos, mas compreende também o conhecimento. Isso, uma vez que o processamento, o refino e a fabricação dos materiais avançados dependem de equipamentos especializados.
Também, de propriedade intelectual, profissionais qualificados e know-how. Então, copiar a China não é uma tarefa muito fácil e, muito menos, deve ter foco em resultados imediatos.
“Nós já sabemos que o Brasil tem o recurso. Agora, precisamos discutir o que faremos com ele. Se o mundo está procurando alternativas à China, elas existem.”