Muito se fala da Indústria 4.0, marcada por avanços em automação, digitalização e robótica, que tem revolucionado os processos produtivos em escala global. Com tecnologias como robôs colaborativos, sistemas interconectados e automação avançada, essa megatendência redefine a forma como indústrias operam e se adaptam às demandas do mercado. 

O mercado global de automação industrial está em expansão e a previsão é que a receita do setor atinja mais de US$ 570 bilhões até 2035, com uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) estimada em aproximadamente 10,3% entre 2025 e 2035, segundo a consultoria de mercado Meticulous Research. 

Oportunidades da automação no Brasil 

Durante a 5ª edição da FEIMEC, a empresa Schunk destacou a crescente demanda por automação no painel “Automatização de usinagem flexível: utilizando ou não robôs”, que aconteceu no Parque de Ideias. Diretor geral, Mairon Anthero enfatizou que a automação não é mais uma questão de “se”, mas de “quando” vai acontecer.  

Ele explica que automatização gera produtividade, eleva a carga horária de trabalho por máquina e também os resultados.  

Atualmente, a média anual de utilização das máquinas é de apenas 1.500 horas, o que equivale a cerca de 17% do tempo total disponível para produção. “Se considerarmos uma operação contínua de 24 horas por dia, 7 dias por semana, ao longo de 365 dias do ano, o potencial máximo de produção de uma máquina seria de 8.760 horas. Isso evidencia uma subutilização significativa, que pode ser considerada um problema em escala global”, alerta o gestor. 

Falta de mão de obra  

Em meio a essa realidade, Anthero enfatiza a dificuldade de contratação e qualificação de mão de obra no setor. “Eu acho que a gente recebeu, desde o começo da feira até hoje, uma média de 700 leads aqui na FEIMEC. Nesses primeiros dias, mais de mil pessoas passaram no nosso estande e foi unânime a queixa sobre a falta de mão de obra”, afirma.  

E completa: “As empresas estão cada vez mais buscando tecnologia para otimizar os seus processos por falta de profissionais, no geral, inclusive mão de obra de base”. 

Ele contou ao portal A Voz da Indústria que uma vaga aberta na planta do Canadá ficou mais de um ano e meio aberta até conseguir alguém para preenchê-la.  

Dados da robotização  

A automação industrial tem avançado rapidamente em todo o mundo, mas a densidade de robôs por trabalhador humano varia significativamente entre os países, refletindo diferentes níveis de investimento em tecnologia e automação. Dados recentes (World Robotics 2025)  mostram como essa relação se distribui globalmente, destacando a liderança de alguns países asiáticos e europeus. 

Na China, há 166 robôs para cada 10 mil trabalhadores. A Coreia do Sul lidera o ranking global com impressionantes 1.220 robôs por 10 mil trabalhadores. A Alemanha, conhecida por sua forte indústria automotiva e de manufatura, apresenta 449 robôs por 10 mil trabalhadores, seguida de perto pelo Japão, com 446. 

No Brasil, no entanto, a densidade de robôs é significativamente menor, com 24 para cada 10 mil trabalhadores, o que representa apenas 18% da média global de 132 robôs por 10 mil trabalhadores. Esse número coloca o país na 40ª posição entre 53 países monitorados pela International Federation of Robotics (IFR). A automação ainda enfrenta barreiras consideráveis no país, como altos custos de implementação e falta de incentivos governamentais, especialmente em setores como usinagem e manufatura, onde a densidade de robôs tende a ser ainda mais baixa. 

Especialistas apontam que a baixa densidade de robôs no Brasil pode impactar negativamente a competitividade do país no cenário global. “A automação é essencial para aumentar a produtividade e reduzir custos, especialmente em um mercado global cada vez mais competitivo”, afirma Anthero. 

Com 85% dos processos produtivos automatizados em sua planta na Alemanha, a Schunk reforça a importância de superar barreiras como acesso a crédito, resistência à mudança e falta de planejamento estratégico. 

Diante desse cenário, Anthero exemplifica quatro modelos de automação em usinagem para transformar as operações industriais.

Modelo 1 – Automação com Garra 

  • Exemplo: Utilização de uma garra automatizada. 

Benefícios: 

  • Redução significativa no tempo de operação. 
  • Eliminação da necessidade de movimentação manual ou de um operador posicionado constantemente em frente à máquina. 
  • Maior eficiência no manuseio de peças. 

Modelo 2 – Carregador de Paletes 

  • Exemplo: Um robô projetado para alimentar até quatro máquinas simultaneamente. 

Funcionalidade: 

  • O robô organiza e distribui peças e paletes ao redor das máquinas. 
  • Ideal para operações que exigem alta integração entre diferentes equipamentos. 

Benefícios: 

  • Redução de tempo ocioso entre processos. 
  • Maior autonomia operacional. 

Modelo 3 – Sistema FMS (Sistema de Manufatura Flexível) 

  • Exemplo: Sistema automatizado para carga e descarga de peças em paletes. 

Funcionalidade: 

  • Permite a movimentação eficiente de materiais entre diferentes etapas do processo produtivo. 
  • Flexibilidade para atender a diferentes demandas de produção. 

Benefícios: 

  • Otimização do fluxo de trabalho. 
  • Redução de intervenções manuais. 

Modelo 4 – Carregador de Peças 

  • Exemplo: Robô capaz de carregar diversos tipos de peças para usinagem. 

Funcionalidade: 

  • Compatível com diferentes tipos de peças e dispositivos de fixação, como morsa. 
  • Ideal para operações que exigem alta personalização e flexibilidade. 

Benefícios: 

  • Operação contínua e precisa. 
  • Redução de erros humanos. 

O especialista destaca que todos os modelos são projetados para funcionar em escala contínua (operação 24/7), incluindo finais de semana, sem a necessidade de operadores humanos. 

“A ausência de interferência humana garante maior consistência, eficiência e redução de custos operacionais. Esses modelos representam o futuro da manufatura, onde a automação não apenas complementa, mas substitui processos manuais, permitindo que as indústrias alcancem novos patamares de produtividade e competitividade”, conclui Anthero. 

Realidade virtual e inteligência artificial: a nova fronteira da indústria 

O painel “Aplicações da Realidade Virtual e IA para ampliar a produtividade da indústria”, com o diretor executivo da VX Virtual Experience, Valmor Rabelo Filho, que aconteceu na tarde desta sexta-feira, no Parque de Ideias, falou sobre como a transformação digital está remodelando a indústria global, e tecnologias como a realidade virtual (RV) e a inteligência artificial (IA) estão no centro dessa revolução.

No entanto, para que essa transição seja bem-sucedida, a gestão precisa liderar o processo, antecipando-se às mudanças e investindo em inovação. Valmor Filho alerta que o desconhecimento e a resistência das empresas em adotar novas tecnologias muitas vezes estão ligados ao conflito de gerações.  

“Essa troca geracional, especialmente com a entrada das gerações Y e Z no mercado, tem gerado desafios para gestores e CEOs, que precisam equilibrar a modernização com a manutenção de práticas tradicionais. A falta de avanço tecnológico pode levar à perda de mercado para concorrentes mais inovadores”, afirma. 

Um dado alarmante reforça a necessidade de ação: 40% dos CEOs globais acreditam que suas empresas não serão economicamente viáveis nos próximos dez anos se continuarem no caminho atual, diz um levantamento da consultoria PWC. Essa percepção reflete a urgência de investir em tecnologias disruptivas e no letramento digital das equipes. 

Aplicações práticas de RV e IA na indústria 

A integração de realidade virtual e inteligência artificial na indústria já apresenta aplicações práticas que vão além da inovação, proporcionando experiências imersivas e sensoriais. Entre os exemplos mais promissores estão:

  • Vídeo monitoramento no chão de fábrica: A digitalização dos processos, aliada à gamificação, permite maior controle e eficiência operacional. 
  • Totens inteligentes: Funcionam como vendedores ou promotores de vendas, oferecendo informações personalizadas e interativas aos clientes. 
  • Catálogos inteligentes: Ferramentas que utilizam IA para apresentar produtos de forma dinâmica e personalizada, otimizando a experiência do consumidor. 
  • Ambientes phygital: Integração do mundo físico com o digital, criando experiências sensoriais e imersivas que aumentam o engajamento e a transparência. 

Gestores da era phygital 

Para liderar essa transformação, os líderes precisam investir em tecnologia e capacitação. Além disso, é essencial compreender as demandas das novas gerações, que valorizam ambientes de trabalho conectados, transparentes e inovadores. 

“A maior dor de um gestor ou CEO hoje é equilibrar a necessidade de modernização com a resistência interna à mudança. É preciso dirigir essa transição com visão estratégica, garantindo que a empresa não apenas sobreviva, mas prospere em um mercado cada vez mais competitivo”, conclui. 

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