A matriz energética brasileira precisa garantir ao setor produtivo que a energia gerada esteja disponível no momento certo, de modo a manter as operações ativas. Com a expansão das fontes renováveis, principalmente a fotovoltaica (solar), o armazenamento de energia em baterias (BESS – Battery Energy Storage System) passou a ser uma solução estratégica.
A ideia é aumentar a segurança energética das indústrias e fortalecer a infraestrutura nacional.
De acordo com Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), a energia solar já evitou cerca de 105,9 milhões de toneladas de CO2 na geração de eletricidade. Um avanço considerável. No entanto, a própria associação diz que é preciso investir em adaptações importantes.
A infraestrutura de transmissão e distribuição de energia não evoluiu na mesma velocidade da geração. Isso, principalmente com relação ao avanço da Microgeração e Minigeração Distribuída (MMGD), que já ultrapassa 42 GW de capacidade instalada, conforme dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
Nesse contexto, o BESS surge como uma tecnologia capaz de disponibilizar no momento certo a energia excedente, de modo a oferecer estabilidade e segurança para os consumidores industriais e comerciais. O portal A Voz da Indústria conversou com Maria Guilhermina, engenheira especialista no setor de energia e Chile Country Manager na Tractebel Brasil, Chile e Canadá, que trouxe fatos importantes.
Novos desafios em energia
Segundo Maria, a expansão das fontes solar e eólica trouxe uma nova realidade ao Brasil. O excesso de geração precisa ser melhor administrado para ampliar a capacidade dos usuários. “Mais capacidade tende a aumentar a flexibilidade operacional e contribuir para a confiabilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN)”, completa.
A energia solar, por exemplo, possui capacidade para uma boa produção durante determinados períodos do dia, mas a demanda industrial nem sempre acompanha essa mesma dinâmica. Isto significa que, sem os sistemas capazes de armazenar essa eletricidade, parte do potencial gerado não consegue ser aproveitada.
A propósito, este mesmo fenômeno é chamado de curtailment (ou restrição de geração). De acordo com dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), em 2024, cerca de 20,6% da energia solar e eólica disponível deixou de ser utilizada devido a limitações operacionais necessárias para preservar a segurança do SIN.
E o que este cenário representa para a indústria? Maria explica que ele reforça a necessidade de soluções que proporcionem maior controle sobre o consumo energético, reduzam os riscos operacionais e garantam a continuidade das atividades.
“Além do armazenamento, os sistemas BESS também incorporam softwares e hardwares de controle que possibilitam o gerenciamento do fornecimento de eletricidade, aumentam a eficiência das redes elétricas e reduzem intermitências, fornecendo energia de reserva em caso de interrupções.”
Como o BESS funciona? Quais são os benefícios para a indústria?
Conforme falamos no início deste conteúdo, o BESS é um sistema de armazenamento de energia em baterias. Ele permite que a eletricidade produzida em períodos de maior disponibilidade seja guardada para ser utilizada posteriormente. Na prática, trata-se de uma uma reserva energética inteligente.
“O BESS é cada vez mais usado pelo setor produtivo”, esclarece a engenheira. Para ela, os principais benefícios compreendem maior segurança energética nas operações industriais, redução dos impactos causados por oscilações ou falhas no fornecimento, melhor aproveitamento da energia solar gerada pelas próprias empresas, redução da dependência da rede elétrica em momentos críticos e maior previsibilidade dos custos de energia.
Ainda de acordo com a especialista, com o BESS, haverá mais eficiência em relação ao investimento realizado na geração renovável. “O sistema já é usado por empresas de setores como o agronegócio para armazenar energia gerada pelos painéis fotovoltaicos e usar quando não há luz solar”.
Além disso, o armazenamento de energia em baterias pode atuar como uma solução de backup energético para evitar interrupções que poderiam comprometer linhas produtivas, equipamentos sensíveis e processos industriais contínuos.
Diferencial competitivo para o setor industrial
A indústria brasileira tem passado por uma transformação em que a energia limpa, a eficiência operacional e a segurança de fornecimento se tornam fatores cada vez mais importantes para a competitividade. Logo, Maria explica que o BESS deixa de ser apenas uma tecnologia de armazenamento e passa a representar uma infraestrutura estratégica para o setor produtivo.
Ao permitir que a energia renovável seja aproveitada com efetividade, a solução contribui para reduzir desperdícios, aumentar a confiabilidade da rede e preparar empresas para um novo modelo energético.
A especialista ainda defende que o futuro da energia no Brasil dependerá da capacidade de gerar eletricidade limpa e também da possibilidade de armazená-la e utilizá-la com inteligência.
Para a indústria, essa evolução significa mais autonomia, previsibilidade e segurança para crescer em um mercado cada vez mais conectado à transição energética.
No entanto, Maria alerta que ainda é necessária uma regulamentação detalhada com requisitos técnicos, forma de contratação e integração com a rede, que será elaborada pela Aneel. “A agência tem um papel decisivo na conformação dos modelos de negócio, no desenho tarifário e na delimitação dos direitos e deveres dos agentes econômicos”.
Para finalizar, ela resume que o BESS é uma das principais formas de reduzir o curtailment no Brasil, além de aumentar a segurança do SIN. “A armazenagem para o posterior uso da energia limpa é uma das formas de transformar os recursos naturais brasileiros em benefícios para o setor produtivo e a população”.
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