A manufatura aditiva deixou de ser apenas uma promessa futurista para se tornar realidade no chão de fábrica brasileiro. Durante duas palestras realizadas no Palco FEIMEC 2026, Luan Saldanha, especialista e difusor de manufatura aditiva industrial da Aditiva Brasil, apresentou cases concretos, alertou sobre os principais erros que travam a adoção dessa tecnologia na indústria e detalhou as especificidades da aplicação metálica.
Acompanhe este guia completo sobre a manufatura aditiva na indústria.
3 erros que impedem o sucesso da Manufatura Aditiva
Saldanha foi direto ao ponto logo no início da apresentação, identificando três equívocos recorrentes que impedem empresas de extrair o máximo potencial da tecnologia:
1. Manufatura Aditiva sem problema definido
“A gente não compra um torno sem saber o que vai tornear, sem saber mais ou menos o que a gente tem de expectativa de produzir peças a partir desse equipamento”, comparou o especialista. Segundo ele, muitas empresas adquirem impressoras 3D sem compreender claramente quais problemas pretendem resolver.
2. Falta de integração com a operação
“A manufatura aditiva não é um departamento, ela acaba sendo um processo”, enfatizou Saldanha. Ele alertou que, sem diálogo com engenharia de produtos, logística, PCP e manutenção, a tecnologia fica isolada e não entrega os benefícios esperados.
3. A máquina como troféu
O terceiro erro identificado é tratar o equipamento como símbolo de inovação, sem aplicação prática definida. “Será que a gente está utilizando ela da melhor forma? Ou a gente está apenas como uma tecnologia que é considerada muitas vezes disruptiva, inovadora, mas será que é só hype?”, questionou.
Desafios da indústria brasileira que a Manufatura Aditiva pode resolver
Durante a apresentação, o especialista mapeou cinco desafios enfrentados pela indústria brasileira que podem ser endereçados pela manufatura aditiva:
- Lead time excessivo;
- Ferramental caro;
- Peças descontinuadas;
- Customização em massa;
- Dependência de importação.
Para fundamentar estes pontos, o palestrante compartilhou dados do setor e empresas que obtiveram sucesso com a implementação da manufatura aditiva.
Mercado global de Manufatura Aditiva
Baseado no relatório Wohlers 2026, Saldanha apresentou dados do mercado global: “O mercado global de manufatura aditiva em 2025 foi de mais de 24 bilhões de reais”, com taxa de crescimento anual próxima a 11%.
Dados relevantes incluem:
- 40% da produção já é de peças finais, não apenas protótipos;
- Mais de 40% das empresas utilizam impressoras 3D internamente;
- Gestores reportam retorno positivo do investimento.
“Isso demonstra que a manufatura aditiva continua crescendo, continua cada vez mais se estabelecendo nas indústrias internacionais e nacionais”, afirmou.
5 direcionamentos estratégicos para implementação
O especialista apresentou cinco direcionamentos para empresas que desejam se posicionar à frente quanto ao processo:
- Entender o diferencial e a jornada – começar com aplicações mais simples, como ferramental polimérico;
- Ferramental digital como ativo – controlar arquivos e conhecimento da cadeia produtiva;
- Manufatura distribuída – criar inventário digital com parâmetros de fabricação documentados;
- Inteligência Artificial – aplicar IA em otimização topológica e automação de pós-processamento;
- Sustentabilidade – considerar metas ESG nas decisões estratégicas.
Checklist executivo: primeiros passos para adotar a Manufatura Aditiva
Para quem está iniciando ou reavaliando processos, Saldanha sugeriu:
1. Mapear as dores
“Quais são as dores que você tem na produção atualmente? É lead time, é ferramental, é flexibilidade?”
2. Validar antes de comprar
“Será que eu preciso comprar a impressora 3D antes mesmo de entender as dores? Talvez eu posso conversar com um fornecedor ou contratar uma empresa prestadora de serviço.”
3. Começar com piloto pequeno
“Começa pequeno, com métricas claras, para que a gente possa escalar posteriormente.”
Manufatura Aditiva Metálica: complexidades e critérios de decisão
Em sua segunda apresentação, Saldanha focou especificamente na aplicação da manufatura aditiva metálica na indústria, desmistificando conceitos e apresentando critérios técnicos para tomada de decisão.
“A manufatura aditiva metálica não é a gente pegar uma peça que já é fabricada por um outro processo de fabricação, usinagem, fundição, conformação, e simplesmente colocar numa impressora 3D.”
Segundo o especialista, a manufatura aditiva é um novo processo de fabricação com características e requisitos bem específicos.
Pontos críticos da Manufatura Aditiva Metálica
O especialista enfatizou três pontos críticos que diferenciam a manufatura aditiva metálica da polimérica:
Custo de Operação: “A gente sabe que o custo para adquirir uma impressora 3D metálica no Brasil é muito elevado”, afirmou, acrescentando que é necessário considerar também custos de material, gás inerte e pó certificado.
Pós-processamento: “Talvez esse é o ponto que a gente tem um maior desconhecimento, mas que impacta muito no custo final da peça”, explicou. O pós-processamento pode incluir usinagem, tratamento térmico e acabamento superficial.
Qualificação: Especialmente importante em setores regulamentados como saúde e óleo & gás, onde é necessário validar propriedades mecânicas e características específicas.
Quando NÃO usar Manufatura Aditiva Metálica
O palestrante apresentou três situações onde a manufatura aditiva metálica não seria a resposta adequada:
- Geometria simples: “Uma peça com geometria simples em geral, com usinagem, a gente consegue fabricar e não tem grandes problemas”;
- Volumes altos com geometria estável: “A fundição forjamento já vai ganhar no custo”;
- Ausência de qualificação definida: Sem critérios claros de qualificação, a peça não poderá ser aplicada ao final do processo.
Framework FÁBRICA para avaliar viabilidade
Um dos destaques da apresentação foi o framework FÁBRICA, desenvolvido por Saldanha para avaliar a viabilidade da manufatura aditiva metálica. O acrônimo representa:
- F (Função): “O que que a peça precisa fazer”
- A (Aplicação): “A manufatura aditiva vai resolver melhor que o processo atual ou a gente está usando só por hype?”
- B (Business): “Usar manufatura aditiva vai gerar valor no sistema”
- R (Repetibilidade): “Funciona sempre usar manufatura aditiva para aquela aplicação?”
- I (Industrialização): “A gente está pensando num processo realmente a nível industrial ou um processo mais a nível de laboratório?”
- C (Competitividade): “Usar manufatura aditiva metálica muda a minha posição no mercado?”
- A (Alavancagem): “Isso consegue escalar”
“Quando a gente não tem respostas para todas essas dimensões, talvez a gente precise se atentar no que está faltando”, alertou o especialista.
8 etapas do projeto de Manufatura Aditiva Metálica
Saldanha detalhou que a manufatura aditiva metálica é uma jornada dividida em 8 etapas interdependentes:
- Modelagem 3D e Design for Additive Manufacturing;
- Otimização topológica;
- Definição de material;
- Tecnologia e processo;
- Impressão da peça;
- Pós-processamento;
- Qualidade e inspeção;
- Qualificação e liberação.
“A impressão da peça é só a etapa 5 de 8 etapas que nós temos que ter atenção. E quem trata como se fosse uma única etapa, muito provavelmente vai ter um grande desafio”, enfatizou.
O especialista destacou as etapas 5 a 8 como “os custos escondidos”, alertando: “Muitas vezes a gente não considera essas etapas e às vezes o custo de um pós-processamento é muito maior do que o custo da impressão 3D“.
Tecnologias e materiais disponíveis
Saldanha apresentou um panorama das principais tecnologias de manufatura aditiva metálica, cada uma com características específicas:
DD (Direct Deposition): Indicado para peças de grandes dimensões e processos in situ, mas com acabamento superficial inferior.
Fusão em Leito de Pó a Laser (PBF-LB/M): Oferece alta resolução e excelente controle dimensional, ideal para geometrias complexas.
Materiais metálicos mais utilizados
Quanto aos materiais, o especialista destacou:
Aços Inoxidáveis (316L e 17-4PH): “Principalmente, a gente está pensando ali para 316L para aplicação em ambientes corrosivos. É muito aplicado em ambiente de óleo & gás”.
Titânio: Material nobre utilizado principalmente nos setores aeroespacial e saúde.
Aços Ferramenta (H13 e M2): “São materiais que já vêm sendo mais utilizados na indústria, principalmente para que a gente consiga criar ferramentais, insertos de moldes de injeção com canais de resfriamento conformais”.
Alumínio: Destacado por suas características de condutividade térmica, ideal para dissipadores de calor.
Casos de sucesso em Manufatura Aditiva
Para concluir, alguns exemplos foram compartilhados pelo especialista.
Airbus
A fabricante aeronáutica conseguiu resultados expressivos ao migrar para manufatura aditiva metálica: redução do desperdício de titânio, eliminação de ferramental dedicado, maior agilidade para ajustes de engenharia e viabilidade de fabricação em larga escala de componentes com mais de 1 metro de comprimento.
Apple Watch Series 11
A Apple conseguiu construir peças próximas à geometria final, reduzir desperdício de titânio, viabilizar o uso de titânio 100% reciclado e criar texturas internas funcionais impossíveis de serem obtidas por forjamento. “Estamos falando ali de milhões de peças fabricadas por ano”, revelou.
Motor de Foguete – UnB, AEB e SENAI
Um caso brasileiro desenvolvido em parceria entre a Universidade de Brasília, a Agência Espacial Brasileira e o SENAI demonstrou a viabilidade da tecnologia no país. “Esse motor de foguete tem uma câmara de combustão que vai a mais de 3.000°C”, explicou Saldanha, destacando que a peça foi fabricada com infraestrutura nacional.
Mapa da Manufatura Aditiva no Brasil
Ao final das apresentações, Saldanha apresentou o Mapa da Manufatura Aditiva no Brasil, ferramenta criada para conectar fornecedores, prestadores de serviço, ICTs e startups. “A ideia é ser um grande hub para que a gente possa encontrar essas informações em um único local”, explicou.
O especialista reforçou que a manufatura aditiva “não vai substituir todos os outros processos de fabricação. Ela vai coexistir”, destacando a importância da manufatura híbrida, especialmente para metais.
As palestras sobre manufatura aditiva realizadas no Palco FEIMEC demonstraram que a tecnologia está madura para aplicação industrial, desde que implementada com planejamento estratégico, integração operacional e compreensão clara dos desafios e oportunidades específicos de cada setor.
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