A indústria passou a considerar a intensificação dos eventos climáticos e, por isso, tem adotado estratégias dedicadas a este fim em sua gestão. Quem ainda não se atentou para essa questão, deve se preparar, pois não se trata mais de uma preocupação pontual, a pauta é necessária.
Acontecimentos como vendavais, enchentes, ondas de calor e tempestades sem aviso prévio provocam interrupções e gargalos operacionais. E, como consequência, prejuízos financeiros.
Para saber como está o planejamento e a infraestrutura da indústria em relação aos eventos climáticos, além das opções viáveis, A Voz da Indústria conversou com Mateus Lima, CEO da i4sea. Ele defende a importância das empresas reverem a maneira de avaliar os riscos, de modo a garantir a continuidade das operações.
Mateus disse que nem mesmo as unidades industriais mais modernas estão imunes aos impactos do atual comportamento climático e deu como exemplo o destelhamento da fábrica da Toyota, em Sorocaba (SP).
Além disso, dados apresentados durante a COP30 apontam que os eventos vigentes provocaram perdas econômicas de R$ 184 bilhões só no Brasil entre 2022 e 2024.
Resiliência climática: indústria deve investir em estrutura
Para o CEO, o problema (prejuízos) vai além da intensidade dos fenômenos naturais. Ele está diretamente relacionado às estruturas das empresas e como elas ainda são projetadas em pleno século 21.
“O caso da Toyota em Sorocaba não é uma exceção. Eventos extremos no Brasil ficaram três vezes mais frequentes e severos na última década, de acordo com o Atlas Digital de Desastres. Uma estrutura projetada para a tabela de recorrência de 30 anos atrás é uma estrutura subdimensionada hoje”, afirma.
Relatórios agora são uma obrigatoriedade para a indústria
Nesse contexto, temos também a governança corporativa. Além dos ativos físicos, Mateus indica o cumprimento das exigências regulatórias relacionadas aos riscos climáticos. Isso porque algumas resoluções, como a CVM 218, alinhada ao padrão internacional IFRS S2, exigem das indústrias brasileiras um relatório da exposição climática por ativo.
Essa atividade, inclusive, passou a ser obrigatória em janeiro deste ano e o primeiro relatório deverá ser entregue em maio de 2027.
Mateus diz que é preciso começar agora. “A partir de 2026, toda companhia aberta brasileira é obrigada a reportar a exposição climática por ativo (CVM 218/IFRS S2). O primeiro relatório obrigatório vence em maio de 2027 e o ano-base é 2026. Quem começa a coletar dados em junho do ano que vem reporta o que conseguir, não o que importa. Risco físico do clima saiu da pauta de sustentabilidade e entrou no balanço, no parecer do auditor e na conversa com o banco”, completa.
Opções efetivas contra eventos climáticos
O cenário aqui falado exige que as empresas despertem o seu interesse por soluções eficazes. O objetivo é obter informações mais precisas do que as previsões meteorológicas convencionais. Como?
O setor industrial vem adotando plataformas que cruzam históricos climáticos de alta resolução com dados específicos de cada operação para permitir a identificação exata das plantas, galpões ou trechos logísticos que podem ser afetados por um determinado evento.
Na prática, é preciso transformar uma previsão em ferramenta operacional. Logo, em vez de alertas abrangentes para uma cidade ou mesmo um estado inteiro, os sistemas indicam, com antecedência, quais ativos estão sob maior risco. Assim, permitirão que as equipes responsáveis adotem medidas preventivas antes que os impactos ocorram.
Conforme Mateus, um aviso genérico de ventos fortes para o estado de São Paulo não para uma fábrica. Mas saber que uma certa rajada vai atingir 100 km/h no telhado da planta dois, por exemplo, entre 14h e 16h, com 24 horas de antecedência sim. “Aí dá tempo de desligar a máquina crítica, evacuar a área sensível e comunicar a cadeia. Vira protocolo de segurança, não desastre”, alerta.
O especialista ainda destaca que a adoção desse tipo de monitoramento ganha mais relevância diante de um outro dado preocupante. Mais de 90% das perdas causadas por desastres climáticos no Brasil ocorrem sem cobertura de seguros. Isso reforça que a prevenção passa a ser um investimento estratégico, de modo a reduzir tanto as perdas financeiras quanto as interrupções produtivas.
Na visão de Mateus Lima, a recorrência desses episódios demonstra que os eventos antes considerados excepcionais passaram a fazer parte da rotina das organizações.
“Eventos como o vendaval da Toyota em Sorocaba são o que a estatística chama de cauda da distribuição. O problema é que a cauda virou rotina, pois tratar o clima como variável de gestão, não de sorte, deixou de ser uma opção. É continuidade do negócio”, conclui.
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